Você nunca terá uma versão definitiva de si mesmo
- João Victor G. Sandoval

- 13 de ago.
- 9 min de leitura
Identidade, mudança e o eterno processo de tornar-se
Há perguntas que parecem simples até que tentamos respondê-las com alguma seriedade. “Quem sou eu?” talvez seja uma das maiores delas.
Desde cedo aprendemos a nos descrever. Dizemos nosso nome, nossa profissão, nossa idade, nossas preferências, nossas características, nossas convicções. Com o passar do tempo, acrescentamos outras definições: sou tímido, sou extrovertido, sou racional, sou sensível, sou alguém que gosta disso e não gosta daquilo. Essas descrições são úteis. Elas nos ajudam a organizar a experiência, comunicar quem somos e encontrar alguma continuidade entre diferentes momentos da nossa vida.
O problema começa quando confundimos descrição com definição.
Passamos, então, a procurar uma espécie de versão definitiva de nós mesmos. Como se o autoconhecimento fosse uma investigação cujo objetivo final seria descobrir, escondida sob todas as circunstâncias e mudanças, uma identidade verdadeira, estável e acabada.
Talvez parte da inquietação envolvida no autoconhecimento venha justamente dessa expectativa.
Porque nós continuamos acontecendo.
Enquanto tentamos descobrir quem somos, novas experiências nos atravessam. Conhecemos pessoas, perdemos outras, mudamos de opinião, abandonamos projetos, encontramos interesses que antes desconhecíamos, somos feridos, amamos, escolhemos, nos arrependemos, aprendemos. Algumas coisas permanecem durante décadas; outras desaparecem silenciosamente. Há características que julgávamos essenciais e que, algum tempo depois, já não reconhecemos em nós.
Talvez, portanto, a pergunta “quem sou eu?” não possa ser respondida da mesma maneira que respondemos “o que é isto?”.
Uma coisa pode ser definida.
Uma existência precisa ser vivida.
O rio e o problema da permanência
Uma das imagens mais antigas utilizadas pela filosofia para pensar a mudança é atribuída a Heráclito: o rio.
A água que passa diante de nós nunca é exatamente a mesma. O rio permanece sendo chamado pelo mesmo nome, embora aquilo que o constitui esteja continuamente se transformando.
A força dessa imagem não está apenas em dizer que “tudo muda”. Ela nos coloca diante de um problema muito mais interessante: como algo pode permanecer sendo aquilo que é enquanto, ao mesmo tempo, muda continuamente?
Esse paradoxo também atravessa nossa experiência.
Existe alguma continuidade entre a criança que fomos, o adolescente que fomos e a pessoa que somos hoje. Não consideramos cada uma delas indivíduos completamente diferentes. Reconhecemos uma história que atravessa todas essas versões.
E, ainda assim, não somos mais aquelas pessoas.
Nossos corpos mudaram. Nossas relações mudaram. Algumas crenças desapareceram. Certas preocupações que um dia ocuparam todo nosso horizonte hoje parecem distantes. Coisas que pareciam impossíveis se tornaram comuns. Outras que imaginávamos permanentes deixaram de existir.
Talvez nossa identidade esteja justamente nessa tensão: há permanência, mas não imobilidade.
Reconhecer isso é importante porque frequentemente interpretamos a mudança como uma ameaça à autenticidade.
“Eu nunca fui assim.”
“Isso não combina comigo.”
“Eu sempre quis aquilo.”
“Todo mundo me conhece dessa maneira.”
“Depois de tudo que investi nisso, não posso mudar agora.”
Frases como essas podem parecer afirmações de coerência, mas também podem funcionar como prisões.
Às vezes, permanecemos comprometidos não com aquilo que somos hoje, mas com a obrigação de continuar correspondendo à pessoa que um dia dissemos que seríamos.
E se não houver uma essência pronta esperando por nós?
Séculos depois de Heráclito, Jean-Paul Sartre levaria o problema da identidade para outro lugar ao formular uma das proposições mais conhecidas do existencialismo: a existência precede a essência.
A ideia ganha profundidade quando deixamos de tratá-la apenas como uma frase de efeito.
Ao pensarmos em um objeto fabricado, sua finalidade geralmente precede sua existência. Uma cadeira é construída a partir de uma ideia anterior sobre aquilo que uma cadeira deve ser. Existe um projeto, uma função, uma definição que orienta sua fabricação.
Sartre propõe que a existência humana não funciona dessa maneira.
Não chegamos ao mundo acompanhados de um projeto completo que determine antecipadamente tudo aquilo que deveremos ser. Primeiro existimos. Somos lançados numa realidade concreta. E, vivendo, vamos nos relacionando com aquilo que encontramos e participando da construção daquilo que nos tornamos.
Isso não significa que possamos simplesmente inventar qualquer identidade para nós mesmos.
Essa interpretação seria simplista.
Não escolhemos onde nascemos. Não escolhemos nosso corpo inicial, nossa família, nossa época histórica, grande parte das condições econômicas e culturais que encontraremos, nem inúmeras experiências que deixarão marcas sobre nós. Tampouco escolhemos todas as consequências das nossas decisões.
Existe sempre algo que já está dado.
Mas aquilo que está dado nunca esgota completamente aquilo que podemos fazer com ele.
É nessa tensão entre aquilo que encontramos e aquilo que fazemos diante do que encontramos que a existência acontece.
Somos história, mas não apenas história
Uma perspectiva fenomenológico-existencial não precisa escolher entre dois extremos.
De um lado estaria a ideia de que existe uma essência imutável dentro de cada pessoa e que viver bem significaria apenas descobri-la.
Do outro, a ideia igualmente problemática de que somos absolutamente livres para nos inventar do zero, como se nossa história, nossas relações, nosso corpo e nossas circunstâncias não tivessem importância.
Nenhuma dessas posições parece dar conta da experiência concreta.
Somos seres históricos.
Chegamos ao presente carregando tudo aquilo que já aconteceu conosco. As relações que tivemos participam da maneira como aprendemos a nos relacionar. As experiências de reconhecimento e rejeição participam da maneira como olhamos para nós mesmos. Nossas escolhas anteriores abriram algumas possibilidades e fecharam outras.
Não existe um “eu” completamente separado dessa trajetória.
Ao mesmo tempo, nossa história não precisa funcionar como uma sentença.
Ter sido uma determinada pessoa durante muitos anos não significa estar condenado a continuar sendo exatamente essa pessoa.
Ter escolhido um caminho não significa ser obrigado a percorrê-lo para sempre.
Ter aprendido uma determinada maneira de responder ao mundo não transforma essa resposta em uma essência.
Talvez uma das distinções mais importantes do autoconhecimento esteja justamente aqui:
reconhecer a própria história não é a mesma coisa que ser aprisionado por ela.
Existir é também poder-ser
Em Heidegger encontramos outra maneira particularmente fértil de pensar essa questão.
O ser humano não é compreendido apenas a partir daquilo que já é, mas também das possibilidades diante das quais se encontra. Nossa existência está continuamente projetada em direção ao que ainda não aconteceu.
Fazemos planos.
Antecipamos futuros.
Imaginamos caminhos.
Tememos possibilidades.
Escolhemos entre alternativas.
Mesmo quando decidimos permanecer exatamente onde estamos, essa permanência acontece diante da possibilidade de não permanecer.
Nossa identidade, portanto, nunca é composta apenas pelo passado.
Somos também aquilo em direção ao qual nos movimentamos.
Há algo profundamente humano nessa condição: estamos continuamente situados entre aquilo que já somos e aquilo que ainda podemos vir a ser.
Isso faz com que qualquer tentativa de definir definitivamente uma pessoa seja, em algum sentido, incompleta.
Podemos descrevê-la hoje.
Podemos compreender aspectos importantes de sua história.
Podemos reconhecer padrões, características, dificuldades, desejos e modos recorrentes de se relacionar com o mundo.
Mas enquanto essa pessoa existir, continuará havendo possibilidade.
E possibilidade significa que alguma coisa ainda está em aberto.
O eu como tarefa
Kierkegaard oferece outra contribuição interessante ao compreender o tornar-se si mesmo não como descoberta passiva, mas como uma tarefa existencial.
Há uma diferença importante entre simplesmente existir e apropriar-se da própria existência.
Podemos viver durante muito tempo orientados predominantemente por expectativas externas. Aquilo que esperam de nós. Aquilo que nossa família imaginou. Aquilo que socialmente representa sucesso. Aquilo que parece adequado para alguém da nossa idade, profissão ou posição.
Nesse caso, podemos construir uma vida coerente por fora e, ainda assim, experimentar uma estranha distância de nós mesmos.
Tornar-se si mesmo não significa encontrar uma personalidade original escondida sob todas as influências sociais. Também somos constituídos nas relações.
A questão parece ser outra:
de que maneira nos apropriamos da vida que estamos vivendo?
Quais escolhas conseguimos reconhecer como nossas?
Que valores realmente orientam nossa existência?
Que partes da nossa história continuamos repetindo apenas porque nunca nos permitimos interrogá-las?
Que expectativas carregamos mesmo depois de terem perdido o sentido?
Nesse ponto, autoconhecimento deixa de ser apenas uma pergunta sobre características.
“Como eu sou?”
E se aproxima de perguntas muito mais difíceis:
“Como tenho vivido?”
“O que tenho escolhido?”
“O que estou evitando?”
“O que continua fazendo sentido?”
“Quem estou me tornando através da maneira como respondo à minha própria vida?”
Quando uma descrição vira sentença
Existe uma diferença enorme entre dizer:
“Tenho dificuldade em confiar nas pessoas.”
e dizer:
“Eu sou uma pessoa incapaz de confiar.”
Entre:
“Tenho me sentido inseguro.”
e:
“Eu sou inseguro.”
Entre:
“Até hoje não consegui fazer isso.”
e:
“Isso não é para mim.”
A diferença parece pequena na linguagem, mas pode ser enorme existencialmente.
Na primeira formulação, descrevemos uma experiência.
Na segunda, transformamos essa experiência em identidade.
Quando isso acontece, o passado começa a colonizar o futuro.
Algo que ocorreu repetidamente passa a ser interpretado como algo que necessariamente continuará ocorrendo.
Uma dificuldade se transforma numa definição.
Uma forma aprendida de existir passa a parecer natureza.
Um momento da história ganha o peso de uma essência.
Talvez seja por isso que uma compreensão psicológica da pessoa precise sempre guardar espaço para aquilo que ainda não apareceu.
Diagnósticos, conceitos, padrões e categorias podem ser importantes em determinados contextos. Mas nenhuma dessas descrições deveria esgotar uma pessoa.
Existe sempre mais história do que uma palavra consegue conter.
A estranha culpa de mudar
Há também um fenômeno curioso que acompanha muitas transformações: às vezes sentimos culpa por já não sermos quem fomos.
Uma pessoa que sempre esteve disponível começa a estabelecer limites e se sente egoísta.
Alguém que construiu sua identidade em torno de uma profissão percebe que deseja outra coisa e sente que está traindo anos da própria história.
Uma pessoa muda de opinião e teme parecer incoerente.
Alguém percebe que um relacionamento, projeto ou estilo de vida já não corresponde àquilo que deseja, mas continua nele porque sair significaria contradizer quem imaginava ser.
Nesse sentido, a busca excessiva por coerência pode se tornar uma forma de paralisia.
Ser coerente consigo mesmo não precisa significar permanecer igual.
Às vezes, a maior coerência possível com a própria existência está justamente em reconhecer que mudamos.
Talvez fidelidade a si mesmo não seja repetir indefinidamente as mesmas escolhas.
Pode ser continuar escutando, com seriedade, aquilo que nossa experiência revela sobre o que faz sentido agora.
Mas mudar também não significa negar quem fomos
Há, contudo, um cuidado importante.
A ideia de transformação pode ser igualmente banalizada.
Vivemos em uma cultura que frequentemente transforma mudança em exigência: reinvente-se, evolua, supere-se, torne-se sua melhor versão.
Como se existir fosse um projeto interminável de otimização.
Não é disso que se trata.
O tornar-se não significa que a pessoa que somos hoje é insuficiente e precisa ser constantemente substituída por uma versão superior.
Também não significa abandonar tudo aquilo que veio antes.
Talvez amadurecer envolva justamente aprender a integrar.
Reconhecer a pessoa que fomos sem precisar continuar sendo exatamente ela.
Compreender algumas escolhas sem precisar repeti-las.
Olhar para erros sem reduzir toda nossa história a eles.
Preservar aquilo que ainda faz sentido.
Deixar partir aquilo que perdeu sua função.
E permitir que algo novo apareça sem exigir que ele imediatamente se torne definitivo.
Talvez o autoconhecimento tenha sido mal formulado
Frequentemente pensamos no autoconhecimento como uma espécie de mapa.
Quanto mais nos conhecemos, mais detalhado ele ficaria, até que um dia poderíamos olhar para ele e dizer: “agora sei exatamente quem sou”.
Mas talvez o mapa nunca possa ser terminado porque o território continua mudando.
Nesse caso, autoconhecimento teria menos a ver com alcançar uma definição final e mais com desenvolver uma relação diferente com nossa própria experiência.
Aprender a perceber.
Reconhecer padrões sem tratá-los como destinos.
Compreender a própria história sem ficar aprisionado nela.
Identificar valores.
Perceber contradições.
Aceitar mudanças.
Escutar aquilo que já não faz sentido.
Reconhecer possibilidades que antes não estavam disponíveis.
E, sobretudo, sustentar a pergunta sobre quem estamos nos tornando.
Talvez conhecer a si mesmo seja menos parecido com encontrar uma resposta e mais parecido com aprender uma linguagem.
Uma linguagem através da qual conseguimos conversar continuamente com a própria existência.
O eterno processo de tornar-se
Existe algo desconfortável em aceitar que talvez nunca cheguemos a uma versão definitiva de nós mesmos.
Uma definição traz segurança.
Se eu sou alguma coisa de maneira definitiva, o futuro parece um pouco menos incerto.
Mas essa mesma definição também pode custar caro.
Porque, para preservar uma identidade completamente estável, precisaríamos negar justamente aquilo que caracteriza uma existência viva: sua capacidade de ser afetada, de responder, de aprender e de se transformar.
Talvez nossa identidade não esteja apesar da mudança.
Talvez ela também exista através dela.
Somos aquilo que fomos.
Somos aquilo que permanece.
Somos as marcas das experiências que nos atravessaram.
Somos também as maneiras pelas quais escolhemos responder a elas.
E somos, ainda, um conjunto de possibilidades que sequer conhecemos porque dependem de encontros e experiências que ainda não aconteceram.
Por isso, talvez a pergunta “quem sou eu?” nunca precise ser completamente encerrada.
Não porque sejamos incapazes de nos conhecer.
Mas porque conhecer uma existência viva significa também reconhecer que ela continua em movimento.
Talvez o desafio seja poder olhar para a própria história sem transformá-la em uma sentença.
Saber que algumas coisas permanecerão e outras não.
Que mudar não significa necessariamente perder a si mesmo.
Que contradizer uma versão antiga de nós pode, às vezes, ser justamente uma maneira de nos aproximarmos da vida que hoje conseguimos reconhecer como nossa.
E que autoconhecimento talvez tenha menos a ver com descobrir uma identidade escondida dentro de nós do que com acompanhar, com atenção e responsabilidade, esse estranho, contínuo e inevitável processo de tornar-se.
Para pensar:
Em quais aspectos da sua vida você ainda tenta permanecer fiel a uma definição de si mesmo que talvez já não corresponda à pessoa que está se tornando?
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