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Riscos psicossociais no trabalho: o que são e por que passaram a ocupar um lugar central na gestão das organizações?

  • Foto do escritor: João Victor G. Sandoval
    João Victor G. Sandoval
  • 11 de ago.
  • 10 min de leitura

Quando pensamos em riscos presentes no ambiente de trabalho, algumas imagens surgem com facilidade.

Máquinas.

Produtos químicos.

Ruído.

Calor.

Acidentes.

Problemas ergonômicos.

Durante muito tempo, falar sobre Segurança e Saúde no Trabalho significou dirigir o olhar principalmente para fatores como esses.

Mas existe outra dimensão da atividade profissional que nem sempre é tão visível.

Ela aparece na forma como o trabalho é organizado.

Na quantidade de tarefas que precisam ser realizadas.

No tempo disponível para realizá-las.

Na autonomia que uma pessoa possui para tomar decisões.

Na maneira como as lideranças se relacionam com suas equipes.

Na clareza — ou na ausência dela — sobre responsabilidades.

Nas relações entre colegas.

Na possibilidade de descansar.

Na insegurança diante do futuro profissional.

No reconhecimento recebido.

Na experiência cotidiana de trabalhar.

É nesse território que encontramos os chamados fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho.

E compreendê-los exige uma mudança importante de perspectiva.

Em vez de perguntarmos apenas:

“Como está a saúde mental deste trabalhador?”

passamos a perguntar também:

“Como esse trabalho está organizado — e que efeitos essa organização pode produzir sobre as pessoas que o realizam?”

Essa diferença parece pequena.

Mas muda profundamente a maneira como pensamos a saúde mental dentro das organizações.


O trabalho não ocupa apenas algumas horas do nosso dia


Trabalhar não significa apenas executar tarefas em troca de remuneração.

O trabalho organiza parte significativa de nossa vida.

Ele estrutura horários.

Cria relações.

Produz expectativas.

Participa da construção da identidade profissional.

Pode proporcionar pertencimento, reconhecimento, desenvolvimento, autonomia e sentido.

Mas também pode ser atravessado por conflitos, insegurança, sobrecarga, ausência de reconhecimento e condições que produzem desgaste.

Isso significa que o trabalho não deve ser compreendido apenas como um lugar onde alguém leva consigo uma saúde mental previamente constituída.

O próprio trabalho participa da experiência psicológica de quem trabalha.

Uma pessoa não deixa sua história, seus limites e suas expectativas do lado de fora quando entra em uma organização.

Da mesma maneira, aquilo que acontece dentro da organização também não permanece restrito ao horário de expediente.

As experiências vividas no trabalho podem acompanhar alguém depois que o computador é desligado, a porta do escritório é fechada ou o turno termina.

Por isso, compreender saúde mental no trabalho exige olhar simultaneamente para duas dimensões:

a pessoa que trabalha e o contexto no qual esse trabalho acontece.


Afinal, o que são riscos psicossociais?


Um ponto importante precisa ser esclarecido desde o início.

Risco psicossocial não é sinônimo de transtorno mental.

Ansiedade, depressão, burnout ou outros quadros de adoecimento podem constituir possíveis consequências de uma combinação complexa de fatores.

O risco, porém, está nas condições capazes de aumentar a probabilidade de determinados prejuízos à saúde.

No contexto ocupacional, estamos falando especialmente de características da organização, das relações e das condições de realização do trabalho.

Entre os exemplos reconhecidos nas orientações do Ministério do Trabalho e Emprego estão situações relacionadas a excesso de demandas, assédio e outras formas de violência, dificuldades na organização do trabalho e outras condições capazes de gerar exposição psicossocial. Serviços e Informações do Brasil

Podemos pensar, por exemplo, em situações como:

  • sobrecarga ou ritmo excessivo de trabalho;

  • exigências incompatíveis com o tempo ou com os recursos disponíveis;

  • pouca autonomia sobre a maneira de executar as atividades;

  • indefinição de funções e responsabilidades;

  • conflitos interpessoais frequentes;

  • ausência de apoio das lideranças ou da equipe;

  • comunicação organizacional deficiente;

  • situações de violência ou assédio;

  • insegurança relacionada ao trabalho;

  • mudanças organizacionais mal conduzidas;

  • dificuldades persistentes na conciliação entre as exigências profissionais e outras dimensões da vida.

Nenhum desses fatores significa automaticamente que haverá adoecimento.

A questão é outra.

Eles podem representar condições de exposição que precisam ser compreendidas, avaliadas e, quando necessário, modificadas.


O risco não está simplesmente “dentro” da pessoa


Essa talvez seja uma das distinções mais importantes quando falamos sobre saúde mental no trabalho.

Imagine dois setores de uma mesma organização.

No primeiro, existe uma grande quantidade de tarefas, prazos constantemente alterados, pouca clareza sobre responsabilidades e uma liderança que dificilmente oferece apoio.

No segundo, há exigências semelhantes, mas os profissionais possuem maior autonomia, objetivos claros, suporte da equipe e recursos adequados para realizar o trabalho.

É possível que pessoas diferentes respondam de maneiras diferentes a ambos os contextos.

Mas isso não elimina uma pergunta essencial:

há características da própria organização do trabalho que tornam determinado ambiente mais ou menos favorável ao desgaste?

Quando ignoramos essa pergunta, existe o risco de individualizar problemas que possuem também uma dimensão organizacional.

O trabalhador está exausto?

Talvez ele precise “aprender a lidar melhor com o estresse”.

Está desmotivado?

Talvez precise “se engajar mais”.

Está tendo dificuldades para cumprir as demandas?

Talvez precise “se organizar melhor”.

Essas hipóteses eventualmente podem fazer parte da análise.

Mas não podem ser automaticamente tomadas como explicação.

Antes disso, é necessário perguntar:

As demandas são compatíveis com os recursos disponíveis?

O trabalho está adequadamente dimensionado?

As responsabilidades estão claras?

Existe autonomia suficiente?

Há suporte das lideranças?

Como são estabelecidas as metas?

Como os conflitos são tratados?

Os processos favorecem ou dificultam a realização da atividade?

Esse deslocamento é fundamental.

Ele não retira a responsabilidade individual.

Mas impede que toda dificuldade seja automaticamente atribuída ao indivíduo.


Saúde mental no trabalho não é apenas oferecer psicoterapia aos funcionários


Outra confusão frequente ocorre quando uma organização percebe problemas relacionados à saúde mental e imediatamente pensa em oferecer atendimento psicológico individual aos trabalhadores.

Esse tipo de cuidado pode ser importante.

Mas ele responde a uma pergunta diferente.

A psicoterapia trabalha com a experiência singular de uma pessoa.

A gestão dos riscos psicossociais procura compreender as características do trabalho que podem estar produzindo exposição para um grupo de trabalhadores.

Imagine uma empresa em que vários profissionais apresentam sinais de esgotamento em determinado setor.

Oferecer acompanhamento psicológico pode ajudar algumas dessas pessoas.

Mas, se a causa estiver relacionada a uma combinação de jornadas excessivas, baixa autonomia, ausência de pessoal suficiente e metas incompatíveis com os recursos disponíveis, somente tratar individualmente os trabalhadores não modifica aquilo que continua produzindo o problema.

Seria semelhante a tratar repetidamente pessoas feridas por uma máquina sem investigar por que aquela máquina continua provocando acidentes.

Cuidar do indivíduo é importante.

Cuidar das condições que produzem risco também é.

São níveis diferentes de intervenção.


Nem toda exigência no trabalho é necessariamente prejudicial


Também seria um erro imaginar que um ambiente saudável é aquele no qual não existem cobranças, dificuldades ou desafios.

Todo trabalho possui exigências.

Prazos.

Responsabilidades.

Problemas a serem resolvidos.

Decisões difíceis.

Momentos de maior intensidade.

Isso faz parte da própria atividade profissional.

A questão não é eliminar toda demanda.

É compreender a relação entre aquilo que o trabalho exige e os recursos que existem para responder a essas exigências.

Um desafio profissional pode gerar aprendizado, desenvolvimento e sensação de realização quando existem condições adequadas para enfrentá-lo.

O mesmo desafio pode se tornar fonte persistente de desgaste quando a pessoa precisa lidar continuamente com demandas elevadas sem autonomia, suporte, recursos ou possibilidade de recuperação.

Por isso, uma análise psicossocial consistente não deveria buscar simplesmente classificar o ambiente como “bom” ou “ruim”.

Ela precisa compreender sua dinâmica.

Quais fatores produzem pressão?

Quais recursos ajudam os trabalhadores a lidar com essa pressão?

Quais grupos estão mais expostos?

Quais aspectos precisam ser preservados?

Quais precisam ser modificados?

É justamente essa relação que torna a avaliação mais complexa do que a simples aplicação de um questionário sobre “como os funcionários estão se sentindo”.


Existem também fatores que protegem


Quando falamos sobre riscos psicossociais, existe uma tendência natural de olhar apenas para aquilo que está errado.

Mas uma organização também possui recursos.

Uma liderança que oferece apoio pode funcionar como fator protetivo.

Assim como:

autonomia adequada;

clareza sobre funções;

possibilidade de participação nas decisões;

relações respeitosas;

reconhecimento;

previsibilidade;

comunicação eficiente;

recursos suficientes para realização das tarefas;

oportunidades de desenvolvimento;

e uma cultura na qual problemas podem ser comunicados sem medo de retaliação.

Uma boa avaliação, portanto, não procura apenas localizar problemas.

Ela procura compreender a relação entre riscos e recursos presentes naquela organização.

Isso é importante porque uma intervenção não precisa significar reconstruir todo o funcionamento de uma empresa.

Às vezes, existem práticas positivas que precisam ser reconhecidas e fortalecidas.

Em outros pontos, existem processos que precisam ser modificados.

O diagnóstico permite justamente diferenciar uma coisa da outra.


Por que não basta perguntar aos funcionários se estão satisfeitos?


Porque satisfação, clima organizacional e risco psicossocial são conceitos relacionados, mas não idênticos.

Uma pesquisa de clima pode fornecer informações valiosas sobre a percepção dos trabalhadores.

Mas uma avaliação de riscos precisa ir além.

Uma pessoa pode, por exemplo, gostar de sua equipe e ainda estar submetida a uma carga de trabalho inadequada.

Pode sentir orgulho da empresa e, simultaneamente, ter pouca autonomia para realizar suas atividades.

Pode considerar sua liderança acolhedora, mas trabalhar em um processo mal dimensionado que gera sobrecarga permanente.

Por isso, compreender riscos psicossociais exige integrar diferentes fontes de informação.

Questionários podem contribuir.

Mas também podem ser necessários:

entrevistas;

análise documental;

observação dos processos de trabalho;

estudo das funções e grupos ocupacionais;

indicadores de absenteísmo e afastamentos;

turnover;

dados relacionados à jornada;

informações sobre organização e distribuição das tarefas;

relatos dos trabalhadores;

e outros elementos pertinentes à realidade analisada.

A própria NR-1 determina que o gerenciamento de riscos considere a participação dos trabalhadores e sua percepção sobre os riscos ocupacionais, além de exigir identificação, avaliação, prevenção e acompanhamento dos riscos.

Nenhum dado isolado conta toda a história de uma organização.

É a integração dessas informações que permite construir uma compreensão mais consistente.


O objetivo não é descobrir quais funcionários são “mais frágeis”


Esse ponto merece especial atenção.

Uma avaliação de riscos psicossociais organizacionais não deve se transformar em um processo de classificação psicológica dos funcionários.

Seu objetivo não é descobrir:

quem é emocionalmente mais forte;

quem tolera melhor pressão;

quem possui maior “resiliência”;

quem teria determinada característica de personalidade;

ou quem estaria predisposto a adoecer.

O foco está no trabalho.

Na exposição.

Nos processos.

Nos grupos ocupacionais.

Nas condições organizacionais.

Naturalmente, pessoas são diferentes.

Possuem histórias diferentes, recursos diferentes e respondem de maneiras diferentes às mesmas situações.

Mas, quando o objetivo é compreender riscos ocupacionais, a pergunta central não deveria ser:

“Qual funcionário suporta menos este ambiente?”

E sim:

“Quais características deste ambiente podem representar risco para quem trabalha nele?”

Essa mudança protege tanto o rigor técnico quanto o próprio trabalhador.

Ela reduz a possibilidade de transformar um problema de organização do trabalho em um julgamento sobre a capacidade psicológica individual.


Por que esse tema ganhou tanta importância?


Porque aquilo que durante muito tempo permaneceu tratado de maneira relativamente difusa passou também a ocupar um lugar explícito dentro do gerenciamento de riscos ocupacionais brasileiro.

A redação atualizada do capítulo de Gerenciamento de Riscos Ocupacionais da NR-1 entrou em vigor em 26 de maio de 2026 e estabelece expressamente que o gerenciamento deve abranger os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho. A norma também determina que as organizações identifiquem perigos, avaliem e classifiquem riscos, implementem medidas de prevenção e acompanhem seus controles.

A mudança é relevante porque o tema deixa de poder ser tratado apenas como uma iniciativa opcional de qualidade de vida ou como uma discussão genérica sobre “bem-estar corporativo”.

Os riscos psicossociais passam a integrar formalmente a lógica de gerenciamento ocupacional.

Isso significa olhar para eles com método.

Identificar.

Avaliar.

Priorizar.

Intervir.

Documentar.

Monitorar.

E revisar quando necessário.

A própria norma determina que os resultados da identificação e avaliação sejam consolidados no inventário de riscos e que as medidas de prevenção sejam organizadas em plano de ação, com acompanhamento de sua implementação.

Mas há algo importante aqui.

A relevância dos riscos psicossociais não começa na legislação.

A legislação torna explícita uma responsabilidade que corresponde a uma questão muito mais ampla:

o modo como organizamos o trabalho produz efeitos sobre as pessoas.


A diferença entre cumprir uma exigência e compreender uma organização


Uma empresa pode olhar para essa mudança apenas como mais uma obrigação.

Um novo documento.

Um novo item do PGR.

Mais uma exigência a ser demonstrada em uma fiscalização.

Essa preocupação é compreensível.

Há responsabilidades legais envolvidas.

Mas reduzir todo o processo à produção de documentação significa perder parte importante de seu potencial.

Uma avaliação psicossocial bem conduzida pode revelar aspectos do funcionamento organizacional que ultrapassam a questão normativa.

Pode mostrar onde existem sobrecargas.

Onde responsabilidades se confundem.

Onde a comunicação está falhando.

Onde as lideranças precisam de suporte.

Onde determinados grupos estão mais expostos.

Onde recursos importantes já existem e deveriam ser preservados.

Onde pequenas mudanças podem produzir efeitos relevantes.

Nesse sentido, gerenciar riscos psicossociais não significa simplesmente demonstrar conformidade.

Significa produzir conhecimento sobre a própria organização.

E utilizar esse conhecimento para tomar decisões mais fundamentadas.


É aqui que a Psicologia Organizacional pode contribuir


A Psicologia possui uma longa tradição de estudo sobre comportamento humano, relações, saúde, organizações e trabalho.

No contexto dos riscos psicossociais, sua contribuição não está em transformar a empresa em um consultório.

Está justamente em fazer o contrário:

compreender as pessoas dentro das condições concretas em que o trabalho acontece.

Isso envolve analisar a relação entre indivíduo e organização.

Entre demandas e recursos.

Entre atividades prescritas e aquilo que efetivamente acontece na rotina.

Entre estruturas formais e relações cotidianas.

Entre indicadores objetivos e a experiência relatada pelos trabalhadores.

A Psicologia Organizacional pode, portanto, contribuir para transformar informações dispersas em uma compreensão integrada.

E essa compreensão pode orientar decisões.

Não porque o psicólogo tenha uma fórmula pronta para determinar como toda empresa deveria funcionar.

Mas porque pode utilizar conhecimento técnico e científico para investigar uma pergunta muito mais específica:

Como esta organização funciona, quais riscos estão presentes e que possibilidades existem para torná-la mais saudável e sustentável para quem trabalha nela?


O trabalhador precisa ser compreendido em seu contexto


Há um princípio que atravessa diferentes áreas da Psicologia.

Uma pessoa nunca existe isoladamente.

Na clínica, sua experiência precisa ser compreendida em relação à sua história.

Na Psicologia Jurídica, em relação às circunstâncias e relações envolvidas no conflito.

No trabalho, não poderia ser diferente.

O sofrimento de um trabalhador não deve ser automaticamente explicado apenas por características individuais.

É preciso olhar para aquilo que ele vive.

Para aquilo que lhe é exigido.

Para os recursos que possui.

Para as relações das quais participa.

Para a maneira como sua atividade está organizada.

Compreender a pessoa também significa compreender o contexto no qual ela existe.

É justamente por isso que os riscos psicossociais ocupam hoje um lugar tão relevante.

Eles nos lembram de algo que talvez devesse parecer evidente:

organizações não são constituídas apenas por cargos, processos, metas e indicadores.

São constituídas por pessoas realizando atividades dentro de determinadas condições.

E a forma como essas condições são organizadas produz consequências.


Um novo modo de pensar saúde mental nas organizações


Talvez a principal transformação esteja aqui.

Durante muito tempo, falar em saúde mental nas empresas frequentemente significava agir depois que o sofrimento aparecia.

O trabalhador adoecia.

Era afastado.

Buscava tratamento.

A empresa lidava com as consequências.

Uma gestão de riscos psicossociais propõe uma lógica diferente.

Antes de perguntar apenas:

“O que fazer quando alguém adoece?”

passamos também a perguntar:

“O que podemos compreender e modificar antes que determinados riscos produzam consequências?”

Essa é a lógica da prevenção.

E talvez seja também uma das contribuições mais importantes que a Psicologia pode oferecer ao mundo do trabalho:

ajudar organizações a perceber que cuidar da saúde mental não significa apenas oferecer suporte quando alguém já está sofrendo.

Significa também olhar criticamente para a maneira como o próprio trabalho está sendo construído.

Porque, algumas vezes, a pergunta mais importante não é:

“Como ajudar esta pessoa a suportar melhor seu trabalho?”

Mas:

“Há algo neste trabalho que precisa ser transformado para que as pessoas não precisem simplesmente aprender a suportá-lo?”

É dessa mudança de perspectiva que começa uma gestão verdadeiramente preventiva dos riscos psicossociais.

 
 
 

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