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Por que a relação terapêutica faz parte da própria psicoterapia

Foto do escritor: João Victor G. Sandoval
João Victor G. Sandoval
há 4 dias
8 min de leitura

Confiança colaboração e limites no trabalho entre paciente e psicólogo


Toda técnica psicoterapêutica chega a uma pessoa por meio de uma relação. Uma pergunta pode abrir uma possibilidade de compreensão ou soar invasiva. Um silêncio pode oferecer tempo ou produzir distância. Uma interpretação pode ajudar a nomear uma experiência ou fazer alguém se sentir reduzido a uma explicação. O efeito clínico depende do que é dito, do momento e de como paciente e psicólogo conseguem trabalhar juntos.


A relação terapêutica participa da própria psicoterapia porque confiança, colaboração, segurança e limites organizam o modo como o trabalho acontece. Isso não transforma simpatia ou identificação imediata em solução. Uma boa conexão, sozinha, não substitui método, competência, ética nem responsabilidade profissional.


Uma relação de trabalho com vínculo


Na pesquisa em psicoterapia, a expressão aliança terapêutica costuma nomear a capacidade de paciente e terapeuta trabalharem em direção a objetivos compreendidos e negociados. O modelo clássico de Edward Bordin reúne três dimensões: acordo sobre os objetivos, acordo sobre as atividades do processo e vínculo suficiente para sustentar esse trabalho.


Vínculo, nesse contexto, não é afinidade social. Ele envolve confiança, respeito e a possibilidade de permanecer em diálogo quando surgem dúvidas, diferenças ou desconforto. Objetivos e formas de trabalho também não ficam imutáveis. Podem ser retomados à medida que a compreensão da demanda se modifica.


A expressão relação terapêutica é mais ampla. Ela inclui a aliança de trabalho, o modo como cada pessoa participa do encontro, as expectativas, os afetos, os limites profissionais e as tensões que aparecem ao longo do processo.


O que as pesquisas permitem afirmar


Uma meta-análise publicada por Flückiger, Del Re, Wampold e Horvath reuniu 295 estudos independentes, com mais de 30 mil pacientes. A qualidade da aliança apresentou associação positiva consistente com os resultados da psicoterapia em diferentes abordagens, países e formas de avaliação.


Esse achado não autoriza dizer que o vínculo causa sozinho a melhora. Os estudos apresentaram variação, e a relação pode ser recíproca: uma aliança mais forte pode favorecer o trabalho, enquanto algum progresso também pode facilitar a confiança e a colaboração. Outra meta-análise, publicada em 2020, encontrou associação semelhante mesmo após ajustes para características iniciais dos pacientes e processos como adesão e competência do terapeuta.


A conclusão responsável é mais modesta e mais útil: a aliança é um fator relevante do processo, não uma garantia de resultado. Demanda, contexto, método, formação profissional, condições de vida e muitos outros elementos também participam do que acontece em psicoterapia.


A confiança cresce com a experiência do processo


Confiança não precisa existir por inteiro antes que o trabalho comece. Ela pode crescer quando a pessoa percebe que consegue fazer perguntas, escolher o ritmo de uma fala, admitir vergonha, dizer que não entendeu ou recusar uma direção sem ser ridicularizada ou punida.


Confidencialidade, clareza sobre o funcionamento do serviço e previsibilidade dos limites também contribuem. O sigilo profissional é uma regra central, com exceções éticas e legais que devem ser explicadas. A confiança se apoia em informações honestas, e não em promessas absolutas.


Segurança clínica também não significa ausência de desconforto. A psicoterapia pode tocar em lembranças, escolhas e contradições difíceis. O que precisa existir é uma base de respeito e responsabilidade para que o desconforto possa ser compreendido sem humilhação, coerção ou exposição indevida.


A colaboração preserva responsabilidades diferentes


Paciente e psicólogo não ocupam posições idênticas. A pessoa atendida conhece sua experiência de um modo que o profissional não pode substituir. Ela traz dúvidas, limites, prioridades e respostas ao que acontece nas sessões. O psicólogo responde pela condução clínica, pelo método, pela avaliação de riscos, pelos registros, pelo sigilo e pelos limites éticos do serviço.


Colaborar significa construir uma compreensão compartilhada do que está sendo cuidado e verificar se as formas de trabalho continuam fazendo sentido. Não significa que o psicólogo concordará com toda interpretação do paciente. Também não significa que o paciente deva aceitar sem questionar o que o profissional propõe.


A diferença de papéis aumenta a responsabilidade do psicólogo. Conhecimento técnico e autoridade profissional não podem ser usados para impor valores, produzir obediência ou encerrar perguntas legítimas sobre o processo.


A relação na clínica fenomenológico-existencial


Na clínica fenomenológico-existencial, a experiência não é tratada como um objeto interno que o psicólogo observa de fora. Ela ganha forma no corpo, na linguagem, nas relações, na história e nas possibilidades percebidas por quem a vive. O encontro clínico oferece um contexto para descrever essa experiência, examinar sentidos e reconhecer maneiras de responder ao mundo.


A presença do psicólogo participa desse campo. Suas perguntas, pausas, hipóteses e afetos interferem no que pode ser dito. Isso exige reflexão sobre a própria posição e flexibilidade para escutar a linguagem do paciente, sem transformar uma teoria em resposta antecipada.


Schievano e Goto alertam para o uso pouco rigoroso do método fenomenológico como se fosse uma técnica aplicada diretamente na sessão. A contribuição fenomenológica à clínica pede estudo e cuidado conceitual. Ela orienta uma relação atenta à experiência e à intersubjetividade, sem eliminar o método clínico nem a responsabilidade técnica.


Falar sobre o próprio vínculo também é trabalho clínico


Há momentos em que a pessoa se sente incompreendida, pressionada, distante ou pouco considerada. Pode discordar de uma hipótese, não compreender por que uma pergunta foi feita ou perceber que os objetivos do atendimento ficaram confusos. Essas experiências podem ser conversadas dentro da psicoterapia.


A literatura chama de ruptura da aliança uma tensão no vínculo, na colaboração ou no acordo sobre objetivos e atividades. Em uma meta-análise com 11 estudos e 1.314 pacientes, a resolução dessas rupturas apresentou associação moderada com resultados positivos. Uma análise publicada em 2026 encontrou uma associação pequena entre rupturas e piores resultados, mas ressaltou que os dados não estabelecem a direção causal.


Isso não torna todo conflito produtivo nem garante reparação. O dado importante é que ignorar a relação pode deixar um problema clínico sem palavras. Quando o psicólogo acolhe o retorno, examina sua participação e renegocia o trabalho quando necessário, a conversa sobre o vínculo pode ampliar a compreensão da própria experiência relacional.


Por que a relação terapêutica não é amizade


A psicoterapia pode envolver afeto, respeito, humor e interesse genuíno. Ainda assim, ela permanece uma relação profissional. O encontro é organizado em torno das necessidades clínicas da pessoa atendida, dentro de tempo, finalidade, sigilo e responsabilidades definidos.


Uma amizade pressupõe reciprocidade e circulação da intimidade entre as pessoas. Na psicoterapia, o paciente não precisa cuidar do psicólogo, corresponder a favores, demonstrar lealdade pessoal ou oferecer acesso à própria vida fora do que for pertinente ao trabalho.


O Código de Ética proíbe relações que possam interferir negativamente nos objetivos do serviço. A Resolução CFP número 13 de 2022 reforça o compromisso de evitar vínculos prejudiciais ao trabalho. Esses limites não tornam a relação fria. Eles protegem a liberdade de falar e reduzem o risco de que a assimetria profissional seja usada em benefício do psicólogo.


Por que a psicoterapia não se reduz a aconselhamento


O psicólogo pode oferecer informações, formular perguntas, compartilhar uma compreensão clínica e, em certos contextos, orientar condutas de cuidado. O processo não se resume a escolher pelo paciente ou entregar respostas prontas.


Conselhos podem aliviar a incerteza por alguns instantes, mas também podem encobrir o modo como uma decisão ganha sentido para aquela pessoa. A psicoterapia procura ampliar condições de compreensão e escolha. A decisão sobre a própria vida continua pertencendo à pessoa atendida, dentro de seus limites e responsabilidades concretas.


Limites protegem o trabalho e a autonomia


Horários, frequência, honorários, cancelamentos, formas de contato, sigilo e condições de interrupção compõem o enquadre profissional. Esses acordos tornam as responsabilidades visíveis e ajudam a impedir que disponibilidade, proximidade ou urgência sejam definidos apenas pela expectativa de uma das partes.


Apoiar alguém em períodos difíceis pode criar uma relação muito importante. Essa importância não deve ser usada para exigir exclusividade, obediência ou permanência. O Código de Ética veda induzir pessoas a recorrer aos serviços do profissional e prolongar desnecessariamente a prestação do serviço.


Rever a frequência, buscar outro tipo de cuidado, realizar um encaminhamento ou concluir a psicoterapia pode ser parte de uma condução responsável. O objetivo profissional não é tornar o paciente dependente da presença do psicólogo para reconhecer cada escolha.


Vínculo método ética e responsabilidade profissional


A relação terapêutica oferece o campo em que perguntas, intervenções e decisões clínicas podem ser compreendidas e avaliadas. O método dá direção ao trabalho. A ética delimita o uso do poder profissional. A responsabilidade exige acompanhar efeitos, reconhecer limites de competência e mudar a condução quando ela não atende às necessidades do caso.


Uma relação calorosa sem formação e método adequados não basta para caracterizar um trabalho psicoterapêutico de qualidade. Da mesma forma, uma técnica aplicada sem diálogo pode perder de vista a singularidade da pessoa e os efeitos que produz no encontro.


Na publicação A psicoterapia como ofício na Psicologia, o Conselho Federal de Psicologia descreve a psicoterapia como uma intervenção baseada no relacionamento e fundamentada em métodos científicos. Essa formulação reúne as duas dimensões que precisam permanecer juntas: a qualidade humana da relação e a responsabilidade técnico-científica do trabalho.


Perguntas para acompanhar o processo


Ao longo da psicoterapia, algumas perguntas ajudam a observar como a relação de trabalho está sendo construída:


·       Existe espaço para perguntar por que determinada intervenção está sendo proposta


·       Posso dizer que não me senti compreendido ou que algo me deixou desconfortável


·       Os objetivos e as formas de trabalho podem ser retomados quando a demanda muda


·       Os limites de contato, sigilo, horários e cancelamentos estão suficientemente claros


·       O psicólogo recebe dúvidas e discordâncias sem humilhar, ameaçar ou exigir concordância


·       Quando o formato não ajuda, há abertura para ajustar a condução, encaminhar ou encerrar


Essas perguntas não formam um teste de compatibilidade nem garantem resultado. Elas ajudam a distinguir uma relação profissional aberta ao diálogo de uma relação sustentada apenas por autoridade, agradabilidade ou expectativa de lealdade.


Quando algo na relação incomoda


Quando for possível, vale levar a experiência para a sessão de modo direto: explicar o que aconteceu, como foi recebido e o que se tornou difícil depois disso. Cabe ao psicólogo escutar, esclarecer sua intenção, considerar seus efeitos e avaliar se o trabalho precisa ser revisto.


Nem todo impasse será resolvido, e permanecer não é uma obrigação. Quebras de sigilo, coerção, humilhação, uso do vínculo para benefício pessoal ou outras violações éticas exigem proteção e podem justificar a busca de outro profissional ou de orientação no Conselho Regional de Psicologia.


A relação terapêutica não garante a melhora e não resolve tudo por si. Ela cria condições para que método, escuta e responsabilidade tenham onde acontecer. Quando paciente e psicólogo podem falar também sobre o que ocorre entre eles, a própria relação se torna parte do campo de compreensão e cuidado.


Nota ao leitor


Este texto tem finalidade informativa e não substitui avaliação psicológica, orientação individual ou atendimento em situações de urgência. A relação terapêutica assume formas diferentes conforme a demanda, o contexto, a modalidade de serviço e a abordagem profissional.

Referências


BORDIN, Edward S. The generalizability of the psychoanalytic concept of the working alliance. Psychotherapy Theory Research and Practice, v. 16, n. 3, p. 252-260, 1979. Acessar DOI


FLÜCKIGER, Christoph; DEL RE, A. C.; WAMPOLD, Bruce E.; HORVATH, Adam O. The alliance in adult psychotherapy: a meta-analytic synthesis. Psychotherapy, v. 55, n. 4, p. 316-340, 2018. Acessar registro


FLÜCKIGER, Christoph et al. Assessing the alliance-outcome association adjusted for patient characteristics and treatment processes. Journal of Counseling Psychology, v. 67, n. 6, p. 706-711, 2020. Acessar registro


EUBANKS, Catherine F.; MURAN, J. Christopher; SAFRAN, Jeremy D. Alliance rupture repair: a meta-analysis. Psychotherapy, v. 55, n. 4, p. 508-519, 2018. Acessar registro


BABL, Anna et al. Alliance ruptures and psychotherapy outcomes: a multilevel meta-analysis of their association. Journal of Clinical Psychology, v. 82, n. 10, p. 1683-1691, 2026. Acessar registro


SCHIEVANO, Bruna Alves; GOTO, Tommy Akira. A psicoterapia humanista fenomenológica e existencial: revisão sistemática qualitativa da literatura. Revista Subjetividades, v. 24, n. 3, e14159, 2024. Acessar artigo


CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Resolução CFP número 10 de 2005. Acessar documento


CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução CFP número 13 de 2022 sobre diretrizes e deveres para o exercício da psicoterapia. Acessar apresentação oficial


CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. A psicoterapia como ofício na Psicologia. Brasília: CFP, 2025. Acessar livro


João Victor Gabarra Sandoval | Psicólogo • CRP: 06/232969
João Victor Gabarra Sandoval | Psicólogo • CRP: 06/232969

 
 
 

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