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A Clínica Fenomenológico-Existencial

Foto do escritor: João Victor G. Sandoval
João Victor G. Sandoval
10 de set.
15 min de leitura

Atualizado: 17 de set.

Fenomenologia e existencialismo são a mesma coisa? Por que essas tradições se encontram na clínica


Resumo: Fenomenologia e existencialismo nasceram de questões e percursos filosóficos distintos. Ao longo do século XX, porém, seu diálogo ofereceu à psicologia uma maneira particular de compreender o sofrimento: não como um objeto isolado dentro da pessoa, mas como uma experiência vivida em relação com o corpo, a história, os outros e o mundo.


Fenomenologia e existencialismo costumam aparecer lado a lado em livros, cursos e apresentações de abordagens clínicas. A expressão “psicologia fenomenológico-existencial” tornou-se tão familiar que pode produzir a impressão de que os dois termos nomeiam uma única teoria. Não nomeiam.


A fenomenologia é um amplo projeto filosófico e metodológico que investiga como os fenômenos aparecem à experiência. As filosofias da existência, por sua vez, reúnem diferentes reflexões sobre o que significa existir diante da liberdade, da finitude, da responsabilidade, da angústia, das relações e da necessidade de escolher sem dispor de respostas completamente prontas.


Essas tradições possuem autores, problemas e caminhos próprios. O que ocorreu, sobretudo ao longo do século XX, foi uma interlocução decisiva entre elas. A fenomenologia ofereceu recursos para nos aproximarmos da experiência sem reduzi-la imediatamente a uma explicação já conhecida. O pensamento existencial aprofundou as perguntas sobre aquilo que essa experiência revela a respeito do modo como cada pessoa está sendo no mundo.


É desse encontro, e não de uma fusão, que nasce grande parte do campo hoje chamado de fenomenológico-existencial.


Antes do encontro: duas tradições diferentes e plurais


Falar em “a fenomenologia” e “o existencialismo” no singular é útil para uma primeira aproximação, mas pode esconder a diversidade presente em ambos os campos.


A fenomenologia inaugurada por Edmund Husserl ganhou desdobramentos distintos em autores como Martin Heidegger, Maurice Merleau-Ponty e outros. Cada um retomou e transformou questões do projeto fenomenológico. De modo semelhante, o pensamento da existência não constitui uma doutrina única: Søren Kierkegaard, Friedrich Nietzsche, Martin Heidegger, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, entre outros, não oferecem versões intercambiáveis de uma mesma filosofia.


Há afinidades entre esses autores, mas também diferenças profundas. Kierkegaard pensa a existência em diálogo intenso com o cristianismo; Nietzsche realiza uma crítica radical da moral e dos valores sedimentados; Heidegger investiga o sentido do ser; Sartre elabora uma filosofia da consciência, da liberdade, do projeto e da situação; Beauvoir mostra como a liberdade se realiza em condições concretas atravessadas pela alteridade, pelo corpo e pela opressão.


Por isso, a expressão “fenomenológico-existencial” deve ser entendida como o nome de um campo de diálogo. Ela indica uma família de perspectivas que compartilham certas preocupações, mas não elimina suas divergências teóricas nem autoriza misturar conceitos sem cuidado.


Husserl e o retorno à experiência


No início do século XX, Edmund Husserl propôs a fenomenologia como uma investigação rigorosa da experiência. Sua conhecida convocação a retornar “às coisas mesmas” não significa ignorar o conhecimento científico ou acreditar que seja possível olhar para o mundo de maneira ingênua e absolutamente neutra. Significa voltar a atenção para o modo como algo se apresenta, antes de tratá-lo apenas como exemplo de uma teoria já pronta.


Na vida cotidiana, tendemos a interpretar rapidamente aquilo que encontramos. Reconhecemos uma situação, atribuímos causas, classificamos comportamentos e antecipamos conclusões. Essa maneira habitual de estar no mundo é necessária: sem ela, até as tarefas mais simples seriam impraticáveis. O problema aparece quando nossas interpretações se tornam tão automáticas que deixam de ser reconhecidas como interpretações. Passamos, então, a confundir o que já pensamos sobre uma experiência com a própria experiência.


A atitude fenomenológica introduz uma pausa nesse automatismo. Husserl chamou de *epoché* o movimento de suspender, metodicamente, a adesão imediata às nossas certezas. Suspender não é apagar tudo o que sabemos, negar os fatos ou fingir ausência de pressupostos. É conter provisoriamente o impulso de decidir o significado de algo antes de examiná-lo.


Na clínica, essa atitude pode ser formulada de maneira simples: descrever antes de concluir, aproximar-se antes de classificar e perguntar antes de presumir. Uma palavra como “ansiedade”, por exemplo, pode designar experiências muito diferentes. Para uma pessoa, ela pode aparecer como aceleração e ameaça; para outra, como paralisia; para uma terceira, como a exigência de controlar tudo para impedir uma perda. O nome compartilhado não esgota o modo singular como o fenômeno é vivido.


A intencionalidade: consciência é relação


Uma das contribuições centrais de Husserl é a noção de intencionalidade. Dizer que a consciência é intencional significa afirmar que ela é sempre consciência de alguma coisa. Percebemos algo, tememos algo, desejamos algo, recordamos algo. Mesmo uma fantasia ou uma expectativa possui uma direção: é fantasia de alguma coisa, expectativa em relação a algo.


Com isso, a consciência deixa de ser pensada como um recipiente fechado, localizado em um “mundo interno” inteiramente separado da realidade exterior. A experiência acontece na relação entre quem vive e aquilo que se apresenta. O medo não é somente uma substância guardada dentro de alguém; ele é uma maneira de encontrar algo como ameaçador. A tristeza não é apenas um estado isolado; ela pode ser a forma pela qual uma ausência, uma ruptura ou uma transformação passa a organizar o mundo vivido.


Essa mudança é especialmente importante para a psicologia. Em vez de procurar exclusivamente algo escondido “dentro” da pessoa, a investigação se volta para a relação: o que aparece, como aparece, em qual situação, com quais sentidos e diante de quais possibilidades.


As filosofias da existência e a vida sem garantias completas


Antes de a fenomenologia se constituir como método, pensadores como Kierkegaard e Nietzsche já haviam colocado a existência concreta no centro de suas reflexões.


Kierkegaard se interessou pelo indivíduo singular, pelas escolhas que não podem ser terceirizadas e pela angústia ligada à possibilidade. Existir não é simplesmente possuir certas características; é estar implicado na tarefa de tornar-se. A existência não pode ser plenamente capturada por um sistema abstrato, porque é vivida por alguém que precisa escolher, agir e se responsabilizar sem conhecer antecipadamente todas as consequências.


Nietzsche, por outro caminho, interrogou os valores que se apresentam como naturais, eternos ou evidentes. Sua crítica permite perguntar de onde vêm as normas pelas quais julgamos uma vida boa, saudável, produtiva ou aceitável. Aquilo que uma época chama de normal pode carregar uma história de disputas, exclusões e relações de poder. Uma norma não deixa de produzir efeitos apenas porque esquecemos sua origem.


Essas filosofias deslocam a pergunta “qual é a essência fixa do ser humano?” para questões mais concretas: como alguém se torna quem é? Que valores orientam sua vida? O que faz diante das condições que recebeu? Como lida com a liberdade, a incerteza, a finitude e os outros?


O existencialismo não surge, portanto, como uma celebração superficial da escolha individual. Ele nasce do reconhecimento de que escolher é inevitável, difícil e situado. Mesmo não decidir já é uma maneira de responder às circunstâncias.


Heidegger: existir é ser-no-mundo


É principalmente com Martin Heidegger que a investigação fenomenológica se volta de maneira radical para a existência. Seu projeto não consiste em acrescentar temas existenciais a uma teoria da consciência. Trata-se de transformar a própria maneira de formular o problema.


Heidegger utiliza o termo alemão *Dasein*, frequentemente traduzido como “ser-aí”, para indicar o modo de ser humano. O “aí” não é apenas um lugar físico. Ele aponta para o campo de significados no qual a existência já se encontra: uma época, uma língua, um corpo, uma história, relações, práticas, condições materiais e possibilidades socialmente reconhecíveis.


Por isso, existir é ser-no-mundo. A expressão deve ser lida como uma unidade. Não há primeiro um sujeito completamente pronto e, depois, um mundo externo com o qual ele decide se relacionar. Desde o início, somos envolvidos por situações, dependemos de outras pessoas, habitamos uma cultura e compreendemos a nós mesmos por meio dos sentidos disponíveis nesse mundo.


Ser-no-mundo também é ser-com-os-outros. Mesmo a solidão é uma maneira de experimentar a presença ou a ausência de vínculos. Nossos projetos são atravessados por expectativas familiares, condições de trabalho, marcadores sociais, discursos sobre sucesso e fracasso, possibilidades de reconhecimento, experiências de cuidado e situações de violência. O modo como alguém vive nunca é uma produção exclusivamente privada.


Facticidade, possibilidade e historicidade


O pensamento heideggeriano ajuda a sustentar duas dimensões que podem parecer opostas, mas pertencem uma à outra.


De um lado, a facticidade: cada pessoa se encontra lançada em condições que não escolheu. Ninguém escolhe o tempo histórico em que nasce, o corpo inicial que recebe, a família de origem, a classe social, a cor da pele ou muitas das situações que marcarão sua trajetória. A vida começa em um mundo já em andamento.


De outro lado, o poder-ser: a existência não está inteiramente concluída por essas condições. O ser humano se relaciona com possibilidades, projeta-se, interpreta o que vive e pode modificar sua maneira de responder ao que encontra. Isso não apaga seus limites; mostra que os limites não equivalem a uma sentença capaz de definir, de uma vez por todas, quem alguém é.


A historicidade reúne essas duas dimensões. Somos constituídos por uma história, mas essa história não é apenas uma coleção de fatos passados. Ela continua atuando no presente, delimitando aquilo que parece possível, impossível, permitido, perigoso ou desejável. Compreender uma experiência exige perguntar tanto pelo caminho já percorrido quanto pelo futuro que, naquele momento, a pessoa consegue ou não imaginar.


Sartre: existência, projeto e liberdade situada


Jean-Paul Sartre parte da fenomenologia, especialmente da intencionalidade, e desenvolve suas consequências em direção à liberdade e ao projeto. Se a consciência é abertura para o mundo e não possui uma essência fixa que a determine antecipadamente, então a existência humana permanece em construção.


É nesse contexto que se encontra a afirmação “a existência precede a essência”. Ela não quer dizer que cada pessoa possa inventar a si mesma do nada, ser qualquer coisa ou superar todos os obstáculos pela força de vontade. Significa que não existe uma definição pronta capaz de determinar inteiramente quem alguém deverá ser. A pessoa existe primeiro e vai se constituindo por meio das relações, das escolhas e das ações que realiza em determinada situação.


O conceito sartriano de projeto não se reduz a um plano consciente, como escolher uma profissão ou estabelecer uma meta. Projeto é a direção mais ampla pela qual alguém organiza sua relação consigo, com os outros e com o mundo. Ele se expressa em escolhas, hábitos, afetos, recusas e tentativas de ser reconhecido de certa maneira.


Esse projeto nunca se realiza no vazio. Sartre fala de liberdade em situação: escolhemos dentro de um campo de possibilidades historicamente constituído. As condições materiais, as relações sociais, as oportunidades, as violências e os lugares que nos são atribuídos ampliam ou restringem aquilo que podemos efetivamente realizar.


Uma pessoa em situação de pobreza, submetida ao racismo, à violência de gênero, à precarização do trabalho ou à ausência de uma rede de apoio não dispõe do mesmo campo de possibilidades que alguém protegido dessas condições. Reconhecer a liberdade não autoriza ignorar desigualdades. Ao contrário, exige examinar de que maneira o mundo distribui possibilidades de forma desigual.


Responsabilidade não é culpabilização


O vínculo entre liberdade e responsabilidade é frequentemente mal compreendido. Na perspectiva existencial, responsabilidade não deve ser convertida em culpa moral nem na ideia de que a pessoa produziu sozinha tudo o que lhe aconteceu.


Ser responsável significa poder se apropriar da própria participação naquilo que vive, distinguindo o que depende de sua ação, o que pertence às ações de outros e o que decorre de condições que ultrapassam sua escolha individual. Em certas situações, responsabilizar-se será agir. Em outras, será reconhecer um limite, pedir ajuda, construir proteção, elaborar uma perda ou admitir que nenhuma decisão elimina completamente o conflito.


Uma clínica que fala em liberdade sem considerar a situação corre o risco de transformar sofrimento social em fracasso pessoal. Uma clínica que considera somente as determinações, por outro lado, pode tratar a pessoa como resultado passivo de forças externas. O desafio é sustentar a tensão: não escolhemos tudo o que nos constitui, mas participamos, dentro de condições concretas, da maneira como nossa história continua sendo vivida.


Por que fenomenologia e existencialismo aparecem juntas na clínica?


O encontro entre essas tradições modificou a psiquiatria e a psicoterapia ao longo do século XX. Karl Jaspers utilizou a descrição fenomenológica na psicopatologia; Ludwig Binswanger e Medard Boss aproximaram a clínica da analítica da existência de Heidegger; outros autores desenvolveram perspectivas inspiradas em Sartre, Kierkegaard, Merleau-Ponty e diferentes vertentes da fenomenologia.


Essa história não produziu um único modelo terapêutico. Existem abordagens fenomenológico-existenciais distintas, com vocabulários, fundamentos e modos de intervenção próprios. Ainda assim, é possível reconhecer uma orientação comum: o sofrimento não é compreendido apenas como algo que a pessoa “tem”, mas como algo que acontece em seu modo de existir.


Isso muda as perguntas formuladas no encontro clínico. Além de investigar “o que essa pessoa tem?”, torna-se necessário perguntar:


  • Como esse sofrimento aparece em sua experiência?

  • O que se transforma em seu corpo, em suas relações e em sua percepção do tempo e do espaço?

  • Em quais situações ele se intensifica ou recua?

  • Que sentidos esse sofrimento adquiriu ao longo da história?

  • O que ele protege, denuncia, interrompe ou torna visível?

  • Quais possibilidades estão abertas e quais permanecem encobertas ou concretamente bloqueadas?

  • Que expectativas familiares, sociais e culturais participam da maneira como a pessoa compreende a si mesma?


Essas perguntas não eliminam a investigação de sintomas, riscos ou condições de saúde. Elas impedem que a investigação termine cedo demais, como se o nome de um transtorno pudesse substituir a compreensão de quem sofre.


O diagnóstico pode informar, mas não esgotar


Uma perspectiva fenomenológico-existencial não precisa negar diagnósticos, pesquisas ou conhecimentos produzidos por outras áreas. Um diagnóstico pode organizar informações, facilitar a comunicação entre profissionais, orientar decisões de cuidado e garantir acesso a direitos e tratamentos. Em determinadas situações, ele é clinicamente indispensável.


O cuidado necessário está em não transformar uma categoria em identidade. Duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem viver experiências muito diferentes, ter histórias distintas e precisar de formas de acompanhamento igualmente distintas. A descrição clínica deve retornar sempre à pessoa concreta.


Também é importante diferenciar descrição fenomenológica de uma simples lista de sintomas. Descrever, nesse contexto, é acompanhar a estrutura da experiência: como o mundo se mostra, como o tempo é vivido, como o corpo é sentido, como os outros aparecem, quais possibilidades perderam força e quais sentidos organizam aquela maneira de existir.


O diagnóstico pode compor essa compreensão. Ele não deve ocupar sozinho o lugar da pessoa.


Suspender pressupostos não é ser neutro ou passivo


Na clínica, a suspensão fenomenológica é uma disciplina da atenção. O psicólogo procura reconhecer suas expectativas, seus valores e suas hipóteses para não impô-los silenciosamente à experiência do outro. Isso não equivale a entrar na sessão como uma folha em branco. Todo profissional possui formação, história, valores, limites e responsabilidades éticas.


Também não significa aceitar sem questionamento tudo o que é dito. Escutar fenomenologicamente pode envolver pedir exemplos, retomar contradições, aproximar a pessoa de aspectos evitados, esclarecer sentidos e confrontar cuidadosamente modos de relação que produzem sofrimento. A diferença está na finalidade: a intervenção não procura enquadrar a pessoa em um ideal prévio de vida, mas ajudá-la a ver com maior nitidez como participa de sua situação e que possibilidades podem ser construídas.


O terapeuta não ocupa o lugar de quem sabe antecipadamente qual escolha o outro deveria fazer. Mas tampouco se ausenta do encontro. Ele participa, pergunta, oferece leituras, acompanha afetos e assume responsabilidade pelo enquadre clínico. Quando há risco significativo, violência ou necessidade de cuidado médico, sua atuação pode exigir medidas diretas de proteção, articulação com uma rede e encaminhamentos. Respeitar a liberdade de alguém não é abandonar essa pessoa à própria sorte.


A técnica acompanha a compreensão


Uma das consequências mais importantes desse campo é a inversão da relação entre compreensão e técnica. Em vez de fazer a experiência caber em um procedimento escolhido de antemão, o profissional procura compreender o que está acontecendo para então decidir como intervir.


Isso não significa abandonar técnicas. Significa utilizá-las com discernimento, flexibilidade e atenção ao sentido que adquirem para aquela pessoa, naquele momento do processo. Um exercício de respiração, um registro escrito, uma pergunta mais direta, um silêncio prolongado, uma orientação prática ou um encaminhamento podem ser pertinentes. Nenhum recurso é fenomenológico apenas por sua forma. O que importa é como ele se articula ao encontro e a serviço de qual compreensão é empregado.


Uma técnica pode abrir possibilidades para uma pessoa e ser vivida como imposição por outra. Pode ser útil em uma etapa e perder o sentido em outra. Por isso, a intervenção não é separada da relação: ela acontece dentro de uma história compartilhada entre terapeuta e pessoa atendida.


O conhecimento técnico continua necessário. A diferença é que ele não recebe o poder de decidir, sozinho e antecipadamente, o significado de uma experiência.


Uma situação clínica possível


Imagine alguém que procura psicoterapia dizendo que precisa “deixar de ser fraco” porque não consegue pedir demissão de um trabalho que lhe causa exaustão. Uma resposta apressada poderia confirmar que permanecer é covardia. Outra poderia explicar o problema somente como baixa autoestima ou medo de mudança. Também seria possível oferecer imediatamente uma lista de estratégias para tomar uma decisão.


A atitude fenomenológico-existencial começa por desacelerar essas conclusões. Como a exaustão é vivida? O que o trabalho representa? Que riscos concretos estão ligados à saída? De quem essa pessoa cuida com sua renda? Que experiências anteriores participam de seu medo? O que significa, em seu mundo, ser “forte” ou “fraco”? Permanecer expressa apenas submissão ou também proteção, responsabilidade e um projeto que ainda não encontrou outra forma de realização?


À medida que a situação se torna mais nítida, novas perguntas podem surgir. Quais alternativas são reais hoje? Que apoios poderiam ampliar o campo de possibilidades? O que a pessoa perde ao ficar e o que arrisca ao sair? Há uma decisão sendo adiada ou a necessidade legítima de construir condições antes de decidir?


O objetivo não é conduzi-la obrigatoriamente à demissão ou à permanência. É ajudá-la a se apropriar da situação, reconhecer limites e desejos, avaliar consequências e escolher com maior clareza. A mudança pode acontecer, mas não é fabricada pela vontade do terapeuta.


O sofrimento como experiência, não como defeito


Na perspectiva fenomenológico-existencial, um sofrimento não é automaticamente tratado como falha que precisa ser eliminada o mais rápido possível. Angústia, tristeza, medo e culpa podem restringir profundamente a vida e exigir cuidado. Ao mesmo tempo, podem revelar rupturas, conflitos, perdas, valores e possibilidades que ainda não encontraram palavras.


Isso não significa romantizar a dor. Há sofrimentos intensos, incapacitantes e perigosos, e o cuidado pode incluir intervenções psicológicas, médicas, sociais e comunitárias. A questão é não confundir cuidar com silenciar toda experiência incômoda. Às vezes, reduzir um sintoma é urgente; em outras, tentar suprimi-lo sem compreender o que está em jogo apenas encobre a situação que o sustenta. Frequentemente, as duas tarefas precisam caminhar juntas: aliviar e compreender.


A clínica se torna, então, um espaço no qual a experiência pode ser tematizada. Aquilo que era vivido apenas como peso ganha contornos, linguagem, história e relações. A pessoa pode perceber que seu sofrimento não nasceu no vazio, que certas exigências não são naturais e que algumas identidades às quais se sentia presa foram construídas ao longo do tempo.


Compreender não garante uma transformação imediata. Mas pode devolver movimento ao que parecia fixo.


Uma clínica sem “maneira correta” de existir


O pensamento fenomenológico-existencial traz uma exigência ética: o psicólogo precisa vigiar a tendência de transformar seus próprios valores, ou os valores dominantes de uma época, em critérios universais de saúde.


Uma clínica pode se tornar violenta quando tenta corrigir modos de vida apenas porque eles divergem de expectativas sociais, familiares, religiosas ou culturais. Orientação sexual, identidade de gênero, escolhas afetivas, maneiras de organizar a família e projetos profissionais não devem ser avaliados a partir de um modelo único de existência legítima.


Ao mesmo tempo, respeitar a singularidade não significa ignorar as relações de poder. Há modos de sofrimento produzidos e mantidos por racismo, sexismo, LGBTfobia, capacitismo, pobreza, precarização e outras formas de exclusão. Se a existência é ser-no-mundo-com-os-outros, a clínica não pode explicar como problema exclusivamente individual aquilo que também é violência social.


O cuidado precisa reconhecer tanto a singularidade da experiência quanto as condições compartilhadas que a atravessam. Às vezes, ampliar possibilidades envolve uma mudança na relação consigo. Em outras, exige fortalecer vínculos, acessar direitos, criar proteção ou participar de transformações coletivas.


O que se busca em um processo terapêutico?


Não existe uma resposta única. De modo geral, porém, uma clínica inspirada por esse diálogo procura favorecer três movimentos relacionados.


O primeiro é a clarificação da experiência. A pessoa é acompanhada na descrição de como vive, sente, escolhe, evita, deseja e se relaciona. Aspectos antes confusos podem ganhar forma e palavras.


O segundo é a apropriação da própria situação. A história deixa de ser percebida apenas como destino inevitável ou como sequência de fatos externos. Torna-se possível reconhecer como certas escolhas, afetos, relações e condições se articulam no presente.


O terceiro é a abertura de possibilidades. Ao compreender melhor o que está em jogo, a pessoa pode perceber caminhos antes encobertos, construir condições para agir ou relacionar-se de outra maneira com limites que não podem ser removidos.


Esses movimentos não seguem uma sequência rígida. Acontecem e retornam ao longo do processo, no ritmo possível para cada pessoa. A clínica exige paciência porque aquilo que sustenta uma forma de vida não pode ser arrancado sem consequências. Até um modo doloroso de existir pode ter cumprido funções de proteção, pertencimento ou sobrevivência.


Por isso, compreender vem antes de corrigir. E acompanhar não é empurrar.


Afinal, fenomenologia e existencialismo são a mesma coisa?


Não. A fenomenologia e o existencialismo não são sinônimos, nem se transformam em uma filosofia única quando chegam à psicologia.


A fenomenologia oferece modos rigorosos de retornar à experiência, examinar como os fenômenos aparecem e suspender conclusões precipitadas. As filosofias da existência interrogam o que significa viver sem uma essência inteiramente pronta, em meio à liberdade, à finitude, à responsabilidade, às relações, aos limites e à necessidade de escolher.


Quando essas tradições se encontram, tornam possível uma clínica que procura enxergar a pessoa para além de rótulos e explicações automáticas. O sofrimento passa a ser compreendido em sua relação com o corpo, a história, os outros, a cultura e as condições materiais. A liberdade é reconhecida sem ser confundida com onipotência. A responsabilidade é trabalhada sem culpabilização. E a técnica encontra seu lugar: não como roteiro que domina o encontro, mas como recurso orientado pela compreensão.


Talvez essa seja a contribuição mais importante do diálogo fenomenológico-existencial para a clínica: lembrar que, antes de ser um caso, um diagnóstico ou um conjunto de sintomas, cada pessoa é uma existência em curso. Uma história que recebeu condições que não escolheu, mas que continua, dentro de limites concretos, aberta a novas maneiras de ser.



Referências para aprofundamento


CARDINALLI, Ida Elizabeth. Heidegger: o estudo dos fenômenos humanos baseados na existência humana como ser-aí (Dasein). *Psicologia USP*, v. 26, n. 2, p. 249-258, 2015.


FEIJOO, Ana Maria Lopez Calvo de. A clínica psicológica em uma inspiração fenomenológica-hermenêutica. *Estudos e Pesquisas em Psicologia*, Rio de Janeiro, v. 12, n. 3, p. 973-986, 2012.


GOMES, William Barbosa; CASTRO, Thiago Gomes de. Clínica fenomenológica: do método de pesquisa para a prática psicoterapêutica. *Psicologia: Teoria e Pesquisa*, v. 26, número especial, p. 81-93, 2010.


HEIDEGGER, Martin. *Ser e tempo*. Campinas: Editora da Unicamp; Petrópolis: Vozes, 2012.


HUSSERL, Edmund. *Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica*. São Paulo: Ideias & Letras, 2006.


SARTRE, Jean-Paul. *O existencialismo é um humanismo*. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.


SARTRE, Jean-Paul. *O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenológica*. 23. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.


VIEIRA JUNIOR, Cezar Augusto; ARDANS-BONIFACINO, Hector Omar; ROSO, Adriane. A construção do sujeito na perspectiva de Jean-Paul Sartre. *Revista Subjetividades*, Fortaleza, v. 16, n. 1, p. 119-130, 2016.


ZANETTI, Felipe Miranda. A clínica fenomenológico-existencial: um saber-fazer pós-identitário. *Studies in Health Sciences*, Curitiba, v. 3, n. 1, p. 195-211, 2022.


João Victor Gabarra Sandoval - Psicólogo | CRP 06/232969
João Victor Gabarra Sandoval - Psicólogo | CRP 06/232969


 
 
 

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