O peso de querer controlar tudo: responsabilidade, limites e aquilo que não depende de nós
- João Victor G. Sandoval

- 13 de ago.
- 15 min de leitura
Existe uma promessa silenciosa por trás de muitas tentativas de controle:
se eu conseguir prever suficientemente bem o que pode acontecer, talvez consiga impedir que algo dê errado.
Pensamos antes de agir.
Repassamos conversas.
Tentamos antecipar reações.
Organizamos possibilidades.
Planejamos o futuro.
Revemos decisões.
Procuramos sinais de que estamos seguindo pelo caminho certo.
Em alguma medida, tudo isso faz parte da experiência humana.
Planejar não é um problema.
Avaliar riscos não é um problema.
Tentar compreender consequências também não.
Grande parte da nossa capacidade de construir uma vida depende justamente de conseguirmos imaginar aquilo que ainda não aconteceu e agir no presente levando o futuro em consideração.
A dificuldade começa quando uma capacidade legítima de planejamento se transforma em uma exigência impossível:
a expectativa de que deveríamos conseguir garantir os resultados daquilo que fazemos.
É nesse ponto que responsabilidade e controle começam a se confundir.
Podemos preparar cuidadosamente uma conversa.
Mas não podemos decidir como a outra pessoa irá recebê-la.
Podemos nos dedicar profundamente a um projeto.
Mas não podemos garantir que ele será reconhecido.
Podemos cuidar de uma relação.
Mas não podemos obrigar alguém a permanecer.
Podemos tomar a decisão mais coerente com as informações disponíveis.
Mas não podemos conhecer antecipadamente todas as consequências que surgirão dela.
Podemos tentar agir corretamente.
Mas não podemos impedir completamente que alguém nos interprete de outra maneira.
Entre aquilo que fazemos e aquilo que acontece existe sempre uma distância.
E talvez uma parte importante do sofrimento comece quando nos recusamos a reconhecer que essa distância existe.
A vontade de controlar nasce, muitas vezes, de algo compreensível
Querer controlar não significa necessariamente desejar dominar pessoas ou situações.
Em muitos casos, a tentativa de controle nasce de algo muito mais simples:
não queremos sofrer.
Queremos evitar a rejeição.
A perda.
O erro.
A vergonha.
A frustração.
A culpa.
A sensação de impotência.
A incerteza sobre aquilo que virá.
Se conseguíssemos saber antecipadamente o que vai acontecer, poderíamos nos preparar.
Se pudéssemos prever todas as reações, talvez evitássemos conflitos.
Se encontrássemos a decisão perfeita, talvez nunca precisássemos nos arrepender.
Se conseguíssemos compreender tudo aquilo que alguém está pensando, talvez não fôssemos surpreendidos.
Há uma lógica interna nessa tentativa.
O problema é que ela exige da existência algo que a existência raramente oferece:
garantias.
E quanto mais precisamos dessas garantias para agir, mais o mundo pode começar a parecer ameaçador.
Porque o mundo não responde completamente à nossa vontade.
Outras pessoas possuem desejos próprios.
Circunstâncias mudam.
Informações são incompletas.
Acasos acontecem.
Decisões produzem efeitos inesperados.
E mesmo quando fazemos tudo aquilo que estava ao nosso alcance, o resultado pode ser diferente daquele que esperávamos.
Epicteto e uma distinção que continua atual
Há quase dois mil anos, Epicteto iniciou seu Manual com uma distinção aparentemente simples:
algumas coisas dependem de nós; outras, não.
A força dessa ideia não está em oferecer uma fórmula para evitar o sofrimento.
Está em obrigar-nos a perguntar onde termina nossa capacidade de ação.
Existem aspectos da experiência sobre os quais possuímos alguma possibilidade de escolha.
Podemos refletir sobre nossas atitudes.
Podemos tentar agir de acordo com determinados valores.
Podemos escolher como nos posicionamos em certas situações.
Podemos avaliar alternativas.
Podemos procurar informações.
Podemos reconhecer um erro e tentar repará-lo.
Mas existem outras dimensões que nunca estão completamente submetidas à nossa vontade.
O comportamento das outras pessoas.
Aquilo que pensam a nosso respeito.
O reconhecimento que receberemos.
A permanência de determinados vínculos.
O passado.
Grande parte dos acontecimentos externos.
E, principalmente, o resultado final de muitas das nossas ações.
A distinção estoica parece simples quando é apresentada teoricamente.
Na vida concreta, porém, ela pode ser muito mais difícil de sustentar.
Porque frequentemente aquilo que não controlamos importa profundamente para nós.
Não controlamos se alguém ficará.
Mas queremos que fique.
Não controlamos se conseguiremos determinada oportunidade.
Mas talvez tenhamos construído meses de expectativa em torno dela.
Não controlamos completamente a saúde das pessoas que amamos.
Mas a possibilidade de perdê-las nos atravessa.
Reconhecer que algo não está sob nosso controle não faz com que aquilo deixe de importar.
E é justamente aí que a reflexão se torna mais complexa.
Aceitar que não controlamos algo não significa deixar de desejá-lo
Existe uma interpretação simplificada da ideia de controle segundo a qual bastaria decidir que aquilo que não depende de nós “não importa”.
Mas talvez isso seja exigir outra impossibilidade.
Algumas coisas fora do nosso controle são justamente aquelas que mais importam.
Amamos pessoas que não podemos impedir de partir.
Dependemos de instituições que não conseguimos determinar sozinhos.
Construímos projetos cujo resultado depende de inúmeros fatores externos.
Vivemos em corpos que não obedecem indefinidamente à nossa vontade.
Participamos de uma sociedade cuja organização influencia nossas possibilidades.
A questão, portanto, não é transformar tudo aquilo que não controlamos em algo irrelevante.
É aprender a sustentar uma experiência mais difícil:
algo pode importar profundamente para mim sem que eu tenha poder para determinar o que acontecerá com isso.
Talvez essa seja uma das experiências mais fundamentais da vulnerabilidade humana.
Cuidar sem poder garantir.
Amar sem poder possuir.
Escolher sem poder conhecer todas as consequências.
Esperar sem poder exigir.
Responsabilidade não é garantia
Uma das confusões mais frequentes ocorre quando tratamos responsabilidade como se ela significasse controle absoluto.
Se algo deu errado, pensamos:
“Eu deveria ter impedido.”
Se alguém reagiu mal:
“Eu deveria ter encontrado outra maneira de falar.”
Se um relacionamento terminou:
“Eu deveria ter percebido antes.”
Se uma decisão produziu consequências negativas:
“Eu deveria ter escolhido diferente.”
Às vezes, essas perguntas são importantes.
Podemos realmente ter responsabilidade por parte daquilo que aconteceu.
Talvez pudéssemos ter agido melhor.
Talvez tenhamos ignorado sinais.
Talvez tenhamos cometido erros.
Reconhecer isso faz parte de uma relação adulta com a própria vida.
Mas existe uma diferença profunda entre dizer:
“Eu participei daquilo que aconteceu.”
e dizer:
“Eu deveria ter sido capaz de controlar tudo aquilo que aconteceu.”
A primeira formulação permite responsabilidade.
A segunda pode produzir onipotência retrospectiva.
Depois que sabemos o resultado, é fácil imaginar que ele sempre esteve disponível para ser previsto.
Mas não estava.
No momento da escolha, não possuíamos todas as informações que hoje possuímos.
Não conhecíamos todas as consequências.
Não éramos exatamente a mesma pessoa que somos agora.
Julgar decisões anteriores utilizando um conhecimento adquirido somente depois delas pode criar uma ilusão:
a de que deveríamos ter sabido aquilo que só pudemos aprender vivendo.
A culpa pode ser uma tentativa de recuperar controle
Isso produz um paradoxo interessante.
À primeira vista, culpar a nós mesmos parece doloroso.
E é.
Mas, em algumas situações, a culpa excessiva também pode oferecer uma forma estranha de segurança.
Porque existe algo assustador em reconhecer que uma situação importante aconteceu sem que tivéssemos poder suficiente para impedi-la.
Às vezes é menos angustiante pensar:
“Tudo aconteceu porque eu errei.”
do que reconhecer:
“Mesmo fazendo tudo certo, talvez eu não pudesse controlar completamente o resultado.”
A primeira frase dói.
Mas preserva uma fantasia:
se fui eu quem causou tudo, então talvez eu pudesse ter impedido tudo.
Na segunda, precisamos encarar algo muito mais desconfortável:
existem acontecimentos diante dos quais nossa capacidade de controle é limitada.
Talvez por isso algumas pessoas revisitem indefinidamente determinados acontecimentos.
“E se eu tivesse dito outra coisa?”
“E se tivesse percebido antes?”
“E se tivesse tomado outra decisão?”
Nem sempre essas perguntas estão procurando aprendizado.
Às vezes estão tentando encontrar uma versão da história na qual ainda possuímos controle sobre aquilo que já aconteceu.
A mente prefere um futuro ruim previsível a um futuro desconhecido
Há outra dimensão importante.
A incerteza não é apenas ausência de informação.
Ela pode ser experimentada como ameaça.
Quando não sabemos o que acontecerá, nossa mente começa a produzir possibilidades.
Algumas boas.
Muitas ruins.
Pensamos:
“E se perder meu emprego?”
“E se essa pessoa se afastar?”
“E se eu estiver tomando a decisão errada?”
“E se eu me arrepender?”
“E se algo acontecer?”
Existe algo curioso nesse processo.
Às vezes, imaginar repetidamente o pior cenário produz uma sensação de preparação.
Como se antecipar o sofrimento pudesse torná-lo menos imprevisível.
Mas existe uma diferença entre preparação e preocupação repetitiva.
Preparar-se produz alguma ação.
A preocupação pode continuar muito depois que todas as ações possíveis já foram realizadas.
Pensamos novamente.
E novamente.
E novamente.
Não porque uma nova informação tenha surgido.
Mas porque ainda não conseguimos alcançar aquilo que procurávamos:
certeza.
E certeza absoluta é justamente aquilo que muitas situações não podem oferecer.
Pensar mais nem sempre significa compreender melhor
Nossa capacidade reflexiva é uma ferramenta extraordinária.
Mas qualquer ferramenta pode ser utilizada além do ponto em que continua sendo útil.
Existe uma diferença entre refletir sobre uma situação e permanecer girando ao redor dela.
Na reflexão, novas relações aparecem.
Informações são organizadas.
Possibilidades são examinadas.
Uma decisão pode começar a se formar.
Na ruminação, frequentemente revisitamos as mesmas perguntas esperando que, em algum momento, elas produzam uma certeza que sua própria natureza não permite.
“Será que fiz certo?”
“Mas e se...?”
“E se eu estiver esquecendo alguma coisa?”
“Como posso ter certeza?”
O problema não é a quantidade de pensamento em si.
É a função que ele começa a cumprir.
Às vezes pensamos não para compreender melhor.
Pensamos para tentar eliminar a incerteza antes de agir.
E algumas decisões não oferecem essa possibilidade.
Em algum momento, pensar deixa de preparar a escolha.
Passa a adiá-la.
Há decisões que só podem ser conhecidas depois de serem vividas
Queremos frequentemente saber se uma decisão é correta antes de tomá-la.
Mas algumas escolhas não podem ser avaliadas completamente antecipadamente.
Podemos analisar.
Podemos buscar informações.
Podemos considerar nossos valores.
Podemos reconhecer riscos.
Mas o significado de determinadas escolhas só aparece depois que começamos a vivê-las.
Nenhum planejamento permite saber exatamente quem seremos depois de uma mudança importante.
Não podemos conhecer integralmente uma relação antes de construí-la.
Não podemos conhecer uma profissão apenas imaginando exercê-la.
Não conseguimos prever todas as maneiras pelas quais uma decisão transformará as circunstâncias ao nosso redor — e a nós mesmos.
Isso significa que certas escolhas contêm necessariamente um elemento de aposta.
Não uma aposta irresponsável.
Mas uma abertura ao desconhecido.
Talvez parte da maturidade esteja em aprender a diferenciar:
“ainda não pensei suficientemente sobre isso”
de
“já pensei tudo aquilo que era possível, mas continuo querendo uma garantia que ninguém pode me oferecer.”
O controle pode se esconder dentro da perfeição
A tentativa de controlar também pode aparecer de maneiras socialmente valorizadas.
Perfeccionismo.
Responsabilidade excessiva.
Necessidade de antecipar problemas.
Dificuldade em delegar.
Planejamento minucioso.
Busca constante por desempenho.
Por fora, essas características podem parecer apenas sinais de competência.
E às vezes são.
Mas podem assumir outra função quando se tornam maneiras de impedir qualquer possibilidade de erro.
“Se eu revisar uma vez mais, nada poderá dar errado.”
“Se eu fizer tudo sozinho, não dependerei de ninguém.”
“Se eu estiver sempre preparado, ninguém poderá me criticar.”
“Se eu for suficientemente bom, não serei rejeitado.”
O problema é que o padrão necessário para garantir essas promessas é impossível de alcançar.
Nenhum desempenho elimina completamente a possibilidade de crítica.
Nenhuma preparação elimina todo erro.
Nenhuma excelência profissional garante reconhecimento.
Nenhuma tentativa de agradar garante permanência.
Quando o esforço deixa de buscar qualidade e começa a buscar invulnerabilidade, nunca parece suficiente.
Controlar o outro é também uma tentativa de controlar aquilo que sentimos
Há ainda uma forma mais relacional dessa dificuldade.
Às vezes tentamos controlar pessoas porque aquilo que elas fazem produz experiências que não queremos sentir.
Queremos que alguém responda rapidamente porque o silêncio produz insegurança.
Queremos que alguém pense como nós porque a discordância nos desorganiza.
Queremos saber todos os detalhes porque o desconhecido desperta ansiedade.
Queremos impedir alguém de tomar determinada decisão porque tememos aquilo que essa decisão pode significar para nós.
Isso não significa que limites e acordos não sejam importantes.
Relações exigem negociação.
Há comportamentos que legitimamente nos afetam e precisam ser discutidos.
Mas existe uma diferença entre comunicar:
“isto produz determinada experiência em mim e preciso conversar sobre nossos limites”
e exigir:
“você precisa agir dessa maneira para que eu nunca precise sentir isso.”
Na segunda formulação, o outro começa a receber a tarefa impossível de regular completamente nossa experiência emocional.
E nenhuma relação consegue sustentar indefinidamente essa exigência.
Amar alguém é também aceitar que ele continua sendo outro
Talvez as relações revelem de maneira particularmente intensa os limites do controle.
Quando alguém importa para nós, suas escolhas nos afetam.
Isso pode produzir o desejo de garantir sua presença.
Sua compreensão.
Sua reciprocidade.
Sua fidelidade.
Sua concordância.
Mas qualquer relação entre duas pessoas contém uma condição difícil:
o outro nunca deixa de ser outro.
Possui uma história própria.
Desejos próprios.
Limites próprios.
Interpretações próprias.
E liberdade para tomar decisões que talvez não correspondam às nossas expectativas.
Podemos construir acordos.
Podemos escolher relações baseadas em compromisso.
Podemos estabelecer limites sobre aquilo que aceitamos ou não.
Mas não podemos transformar compromisso em propriedade.
A vulnerabilidade das relações nasce justamente disso.
A presença de alguém possui valor porque não é simplesmente uma extensão da nossa vontade.
Amar alguém talvez signifique, em alguma medida, reconhecer:
“você importa profundamente para mim, mas eu não controlo completamente aquilo que você fará.”
Não é uma posição confortável.
Mas talvez seja condição para que uma relação seja realmente entre duas pessoas — e não entre uma pessoa e aquilo que ela tenta fazer do outro.
Aceitar limites não significa tornar-se passivo
Esse ponto precisa ser preservado para que a discussão sobre controle não se transforme em resignação.
Existem situações que podem — e devem — ser transformadas.
Há injustiças diante das quais é necessário agir.
Relações nas quais precisamos estabelecer limites.
Ambientes dos quais precisamos sair.
Problemas sobre os quais possuímos responsabilidade concreta.
Condições sociais e institucionais que podem ser coletivamente modificadas.
Dizer que nem tudo depende de nós não significa defender:
“aceite tudo.”
Também não significa:
“não tente mudar nada.”
Existe uma diferença entre aceitação do limite e submissão àquilo que poderia ser transformado.
Podemos não controlar o resultado de uma ação e ainda assim ser responsáveis por realizá-la.
Uma pessoa pode denunciar uma injustiça sem possuir garantia de que haverá reparação.
Pode estabelecer um limite sem conseguir controlar se ele será respeitado.
Pode abandonar uma situação prejudicial sem saber exatamente o que encontrará depois.
Pode lutar por uma mudança política, institucional ou coletiva sabendo que o resultado não depende apenas dela.
A ausência de controle não elimina a possibilidade de ação.
Na realidade, talvez uma ação verdadeiramente responsável comece quando conseguimos agir sem exigir garantias de sucesso para reconhecer seu valor.
Nem todos possuem a mesma margem de escolha
Também é necessário ter cuidado com discursos sobre controle e responsabilidade que tratam todas as pessoas como se estivessem diante das mesmas possibilidades.
Não estão.
Nossa capacidade de agir é atravessada por condições concretas.
Recursos financeiros.
Saúde.
Relações de dependência.
Violência.
Condições de trabalho.
Responsabilidades familiares.
Preconceito.
Desigualdade social.
Acesso a informação.
História de vida.
Estado psicológico.
Uma pessoa pode reconhecer perfeitamente aquilo que gostaria de mudar e ainda assim possuir, naquele momento, uma margem de ação muito reduzida.
Por isso, dizer simplesmente:
“mude aquilo que depende de você”
pode se tornar injusto quando não examinamos o quanto realmente depende daquela pessoa.
A liberdade humana não precisa ser pensada como ausência de condicionamentos.
Podemos compreendê-la de maneira mais concreta:
qual é a possibilidade de ação que existe para esta pessoa, nesta situação, diante destes limites?
Às vezes ela será ampla.
Às vezes mínima.
E reconhecer um limite real não é falta de coragem.
É parte da compreensão da situação.
Existe diferença entre controle, influência e ausência de poder
Talvez uma maneira mais útil de organizar certas situações seja abandonar a divisão rígida entre “controlo” e “não controlo”.
Na vida real, muitas coisas estão em uma região intermediária.
Podemos pensar em três campos.
Aquilo sobre o que possuímos maior possibilidade de ação
Nossas atitudes.
Algumas escolhas.
A maneira como respondemos a determinadas situações.
O esforço que decidimos investir.
Os limites que comunicamos.
Aquilo sobre o que possuímos influência, mas não controle
Relacionamentos.
Projetos coletivos.
Ambientes profissionais.
A maneira como somos percebidos.
Resultados de decisões.
Podemos contribuir para essas situações, mas não determiná-las sozinhos.
Aquilo que está amplamente fora do nosso alcance
O passado.
Decisões já tomadas por outras pessoas.
Determinados acontecimentos externos.
Muitas perdas.
O fato de que somos vulneráveis ao tempo, à mudança e à finitude.
Essa diferenciação pode ser importante porque grande parte da vida acontece justamente no segundo campo.
Não somos impotentes.
Mas também não somos soberanos.
Participamos sem determinar completamente.
Talvez essa seja uma descrição bastante precisa da própria condição humana.
O passado é um dos lugares onde mais tentamos exercer um controle impossível
Há algo particularmente difícil em aceitar acontecimentos que já ocorreram.
Porque, no presente, conseguimos imaginar inúmeras maneiras pelas quais poderiam ter acontecido de outra forma.
“Eu poderia ter percebido.”
“Eu deveria ter respondido diferente.”
“Se eu tivesse ido embora antes...”
“Se eu tivesse ficado...”
“Se eu não tivesse escolhido aquilo...”
A imaginação reconstrói o passado infinitamente.
Mas há algo que nenhuma dessas reconstruções consegue fazer:
transformá-lo.
Podemos transformar nossa compreensão sobre aquilo que aconteceu.
Podemos reparar consequências quando isso ainda é possível.
Podemos pedir desculpas.
Podemos aprender.
Podemos tomar decisões diferentes no presente.
Mas não podemos voltar à situação original munidos da pessoa que nos tornamos depois dela.
Aceitar o passado talvez seja uma das formas mais radicais de reconhecer um limite.
Não significa dizer que foi bom.
Não significa perdoar aquilo que não desejamos perdoar.
Não significa deixar de sofrer.
Significa apenas reconhecer:
isso pertence à minha história, e minha possibilidade de ação agora começa depois disso.
A psicoterapia não oferece controle sobre a vida
Às vezes, alguém chega à psicoterapia com uma expectativa compreensível:
“Quero aprender a não sentir isso.”
“Quero ter certeza sobre o que fazer.”
“Quero descobrir qual decisão é correta.”
“Quero parar de me preocupar.”
É possível que o processo ajude a diminuir determinados sofrimentos.
Pode ampliar recursos.
Pode permitir compreender padrões.
Pode ajudar a distinguir riscos reais de ameaças imaginadas.
Mas psicoterapia não transforma a existência em um espaço totalmente previsível.
Talvez uma de suas contribuições mais importantes seja justamente outra:
ajudar a pessoa a construir uma relação diferente com aquilo que não pode controlar.
Isso pode significar compreender por que a incerteza se tornou tão ameaçadora.
De onde vem a necessidade de antecipar tudo.
Que experiências tornaram o erro tão intolerável.
Por que a opinião dos outros adquiriu tamanho poder.
O que acontece quando uma decisão não possui garantias.
Que responsabilidade realmente pertence à pessoa — e qual ela continua carregando apesar de nunca ter sido sua.
Em alguns momentos, o trabalho não consiste em aumentar o controle.
Consiste em tornar possível viver sem precisar de controle absoluto para continuar vivendo.
Talvez não precisemos eliminar a incerteza para conseguir agir
Existe uma pergunta que frequentemente antecede decisões importantes:
“Como posso ter certeza?”
Talvez, em algumas situações, a resposta mais verdadeira seja:
não pode.
Pode refletir.
Pode se informar.
Pode reconhecer aquilo que valoriza.
Pode avaliar consequências previsíveis.
Pode conversar com pessoas importantes.
Pode observar sua própria experiência.
Mas talvez ainda reste alguma incerteza.
Então surge outra pergunta:
“Quanta certeza eu realmente preciso para escolher?”
Isso muda o problema.
Porque talvez tenhamos transformado a certeza absoluta em condição para uma ação que nunca poderá fornecê-la.
Viver exige inúmeras decisões tomadas com conhecimento incompleto.
Não porque sejamos irresponsáveis.
Mas porque nenhuma pessoa possui acesso antecipado à totalidade do futuro.
Existe liberdade também em deixar de lutar contra o inevitável
Nem toda luta é necessária.
Algumas situações precisam de nossa resistência.
Outras precisam de nossa ação.
Mas existem batalhas travadas contra fatos que já não podem ser modificados.
Contra o tempo.
Contra o passado.
Contra uma escolha alheia que já aconteceu.
Contra uma perda irreversível.
Contra o fato de que uma fase terminou.
Nessas situações, continuar lutando não preserva necessariamente liberdade.
Pode justamente nos prender àquilo que já não responde à nossa ação.
Aceitar não significa gostar.
Significa parar de exigir que a realidade deixe de ser aquilo que já é para que possamos continuar vivendo.
Há algo doloroso nessa passagem.
Mas pode existir também uma forma de liberdade.
Porque a energia antes investida na tentativa de alterar o inalterável volta a estar disponível para a pergunta:
“Diante disso, o que ainda posso fazer?”
Talvez maturidade não seja controlar melhor
Podemos imaginar maturidade como capacidade crescente de administrar tudo.
Ser mais preparado.
Mais organizado.
Mais racional.
Menos afetado pelo inesperado.
Mas talvez exista outra forma de compreendê-la.
Maturidade pode ser reconhecer com maior precisão onde termina nosso poder.
Assumir aquilo que nos pertence sem tentar carregar aquilo que não nos pertence.
Fazer reparações quando cometemos erros sem imaginar que deveríamos ter previsto tudo.
Estabelecer limites sem acreditar que podemos controlar a resposta do outro.
Planejar o futuro sabendo que ele continuará capaz de nos surpreender.
Amar pessoas sabendo que são livres.
Escolher sabendo que algumas consequências só aparecerão depois.
Talvez não se trate de abandonar o desejo de influenciar a própria vida.
Trata-se de abandonar a fantasia de soberania sobre ela.
O limite também pode organizar nossa liberdade
À primeira vista, limite e liberdade parecem opostos.
Quanto menos limites, mais livres seríamos.
Mas uma liberdade completamente ilimitada seria quase impossível de habitar.
Escolher só se torna possível porque existem condições concretas.
Tempo.
Circunstâncias.
Corpo.
História.
Outras pessoas.
Recursos.
Responsabilidades.
A pergunta humana talvez nunca seja:
“O que eu faria se pudesse controlar tudo?”
Porque nunca poderemos.
A pergunta real é:
“O que posso fazer com aquilo que me foi dado, diante daquilo que não escolhi e dentro da margem de liberdade que existe para mim?”
É uma pergunta menos grandiosa.
Mas talvez seja muito mais próxima da vida.
Fazer o que podemos e permanecer diante do que não podemos
Há situações em que ainda existe algo a fazer.
Precisamos agir.
Conversar.
Escolher.
Denunciar.
Mudar.
Reparar.
Pedir ajuda.
Sair.
Permanecer.
Tentar novamente.
Mas existem também momentos em que chega uma hora na qual já fizemos aquilo que estava ao nosso alcance.
E ainda assim o resultado não depende apenas de nós.
Talvez essa seja uma das experiências mais difíceis:
ter feito tudo aquilo que podíamos e ainda precisar esperar.
Esperar uma resposta.
Uma decisão.
Um resultado.
Uma recuperação.
Uma mudança que depende também de outras pessoas.
É justamente nesse espaço que a tentativa de controle costuma retornar.
Queremos fazer mais alguma coisa porque permanecer sem agir produz a sensação de impotência.
Mas nem sempre existe mais alguma coisa a fazer.
Às vezes resta esperar.
E esperar não é ausência de experiência.
É sustentar a própria vulnerabilidade diante de algo que importa e que não responde inteiramente à nossa vontade.
Talvez a serenidade não esteja no fim da incerteza
É tentador imaginar que finalmente estaremos tranquilos quando:
soubermos o que acontecerá;
tivermos resolvido todos os problemas;
ninguém puder nos rejeitar;
todas as escolhas estiverem confirmadas;
todos os riscos tiverem desaparecido;
nenhuma situação estiver fora do nosso controle.
Esse momento provavelmente nunca chegará.
Quando um problema termina, outros aparecem.
Quando uma resposta chega, novas perguntas surgem.
Quando conseguimos uma garantia, percebemos outra vulnerabilidade.
Talvez a serenidade não esteja esperando por nós em algum futuro no qual finalmente teremos tudo sob controle.
Talvez ela precise ser construída no meio da própria incerteza.
Não como indiferença.
Não como passividade.
Mas como a capacidade de dizer:
“Isto importa para mim.”
“Farei aquilo que estiver ao meu alcance.”
“Reconheço que não consigo determinar tudo aquilo que acontecerá.”
“E ainda assim posso continuar.”
Para pensar
Talvez seja útil olhar para aquilo que ocupa sua preocupação hoje e perguntar:
O que realmente depende de mim nesta situação?
Sobre o que possuo influência, mas não controle?
O que estou tentando garantir apesar de não depender exclusivamente da minha ação?
Existe algo que ainda preciso fazer — ou estou apenas repetindo pensamentos na tentativa de produzir uma certeza impossível?
Que responsabilidade realmente me pertence?
E que peso tenho carregado como se também fosse meu, embora nunca tenha estado sob meu controle?
Talvez reconhecer limites não retire o peso daquilo que importa.
Mas pode impedir que acrescentemos a esse peso uma exigência ainda maior:
a de sermos responsáveis por controlar uma vida que, por definição, nunca estará completamente em nossas mãos.
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