O peso de poder observar a si mesmo: consciência, liberdade e sofrimento
- João Victor G. Sandoval

- 13 de ago.
- 21 min de leitura
Há algo peculiar na experiência humana.
Nós não apenas vivemos.
Também conseguimos, em alguma medida, perceber que estamos vivendo.
Sentimos medo e podemos perguntar por que estamos com medo.
Ficamos tristes e podemos tentar compreender de onde vem aquela tristeza.
Tomamos uma decisão e, algum tempo depois, voltamos mentalmente a ela para avaliá-la.
Falamos com alguém e, enquanto falamos, podemos imaginar a maneira como estamos sendo percebidos.
Vivemos uma situação e, simultaneamente, construímos interpretações sobre aquilo que ela significa.
Não somos apenas participantes de nossa experiência.
Somos também, em alguma medida, observadores daquilo que estamos vivendo.
Essa capacidade reflexiva está entre os fenômenos mais extraordinários da consciência.
Ela nos permite aprender com o passado, projetar o futuro, produzir conhecimento, construir narrativas sobre nossa história, rever escolhas, atribuir significados às experiências e perguntar quem estamos nos tornando.
Mas existe uma ambivalência fundamental nisso.
A mesma consciência que nos permite compreender nossa própria existência também nos permite questioná-la, julgá-la, compará-la e antecipar aquilo que ainda nem aconteceu.
Podemos sofrer por uma experiência.
E depois sofrer novamente pelo significado que atribuímos a ela.
Talvez parte da complexidade da condição humana esteja justamente aí:
não apenas existimos — sabemos, em alguma medida, que existimos e somos capazes de transformar essa própria existência em uma questão.
Não apenas sentimos: sabemos que estamos sentindo
Imagine uma situação simples.
Você entra em um ambiente e sente ansiedade.
Existe, primeiro, a própria experiência corporal e emocional.
O coração acelera.
A respiração muda.
Há tensão.
Talvez surja vontade de sair.
Mas algo pode acontecer logo depois.
Você percebe:
“Estou ansioso.”
A partir daí, uma nova camada de experiência se abre.
“Por que estou assim?”
“Será que alguém percebeu?”
“Eu não deveria estar sentindo isso.”
“Por que sempre acontece comigo?”
“E se eu não conseguir controlar?”
O sentimento inicial permanece.
Mas agora existe também uma consciência sobre o sentimento.
Essa consciência pode ser útil.
Ela permite reconhecer aquilo que está acontecendo e talvez escolher como responder.
Mas também pode aumentar a intensidade da própria experiência.
Não sentimos apenas ansiedade.
Podemos ficar ansiosos por estarmos ansiosos.
Não sentimos apenas tristeza.
Podemos começar a nos preocupar com o fato de estarmos tristes.
Não cometemos apenas um erro.
Podemos transformar aquele erro em uma avaliação sobre quem somos.
Assim, aquilo que originalmente era uma experiência passa a ser acompanhado por um comentário interno sobre a experiência.
E esse comentário pode alterar profundamente aquilo que estamos vivendo.
A experiência humana possui camadas
Talvez seja possível compreender essa complexidade imaginando diferentes níveis de uma mesma experiência.
Primeiro:
algo acontece.
Depois:
vivemos aquilo que aconteceu.
E então:
interpretamos aquilo que estamos vivendo.
Mas não necessariamente paramos aí.
Podemos ainda perguntar:
“O que significa o fato de eu estar interpretando isso dessa maneira?”
E depois:
“O que isso diz sobre mim?”
Nossa consciência consegue dobrar-se sobre si mesma.
Podemos pensar sobre nossos pensamentos.
Julgar nossos julgamentos.
Duvidar de nossas próprias percepções.
Perguntar se aquilo que sentimos é legítimo.
Imaginar como outra pessoa interpretaria nossa interpretação.
Essa capacidade reflexiva possui enorme valor.
Mas ela cria uma possibilidade particularmente humana de sofrimento:
a experiência pode continuar muito depois que o acontecimento terminou.
Uma conversa de cinco minutos pode permanecer conosco durante horas.
Uma decisão tomada em alguns segundos pode ser revisitada durante anos.
Uma frase que alguém disse pode adquirir novos significados a cada vez que voltamos a ela.
O acontecimento terminou.
Mas nossa relação com ele continua.
O passado não permanece apenas no passado
Fisicamente, o passado não está mais acontecendo.
Mas psicologicamente ele pode continuar presente.
Recordamos.
Reinterpretamos.
Reconstruímos.
Às vezes compreendemos uma experiência de maneira completamente diferente anos depois de ela ter ocorrido.
Isso revela algo importante.
Nossa história não existe apenas como uma sequência fixa de fatos.
Ela existe também através da maneira como continuamos nos relacionando com esses fatos.
Uma experiência da infância pode adquirir novo significado na vida adulta.
Uma decisão antes considerada um fracasso pode posteriormente ser compreendida como parte de uma transformação importante.
Uma relação que durante anos foi lembrada apenas com sofrimento pode passar a ocupar outro lugar na própria narrativa.
Isso não significa que podemos simplesmente escolher qualquer significado para aquilo que aconteceu.
Existem fatos.
Existem consequências.
Existem experiências que produzem feridas reais.
Mas aquilo que aconteceu e aquilo que continuamos fazendo com o que aconteceu não são exatamente a mesma coisa.
É nesse espaço que a consciência reflexiva pode participar da transformação.
Podemos revisitar a própria vida
Talvez uma das características mais impressionantes da consciência seja esta:
podemos voltar simbolicamente a momentos anteriores da nossa existência carregando uma pessoa diferente daquela que os viveu originalmente.
Quando recordamos algo aos quarenta anos, não somos mais exatamente a pessoa que viveu aquilo aos vinte.
Possuímos novas experiências.
Outras relações.
Mais informações.
Outros valores.
Talvez outras palavras para nomear aquilo que antes apenas sentíamos.
Isso pode nos permitir compreender melhor determinadas situações.
Mas também pode produzir uma armadilha.
Podemos julgar nossa versão anterior utilizando recursos que ela ainda não possuía.
“Como eu não percebi?”
“Como pude aceitar aquilo?”
“Eu deveria ter sabido.”
Mas talvez a pessoa que hoje consegue formular essas perguntas só exista porque atravessou aquilo que agora consegue compreender.
Existe uma espécie de injustiça retrospectiva quando exigimos do passado uma consciência que só conquistamos depois dele.
A autoconsciência abre a possibilidade do arrependimento
Se fôssemos incapazes de imaginar alternativas, talvez o arrependimento fosse impossível.
Mas conseguimos pensar:
“Eu poderia ter feito diferente.”
Essa pequena frase contém uma enorme complexidade.
Ela significa que conseguimos comparar a realidade que aconteceu com uma realidade que não aconteceu.
Construímos mentalmente um caminho alternativo.
“Se eu tivesse dito aquilo...”
“Se tivesse permanecido...”
“Se tivesse ido embora...”
“Se tivesse escolhido outra profissão...”
“Se tivesse percebido antes...”
Essa capacidade permite aprendizado.
Podemos reconhecer erros e modificar decisões futuras.
Mas ela também nos permite construir infinitas versões de uma vida que nunca precisaram enfrentar as limitações da realidade.
O caminho imaginado pode parecer mais simples porque não precisamos conhecer suas dificuldades.
A resposta que pensamos depois de uma discussão parece perfeita porque já sabemos como a conversa terminou.
A escolha alternativa parece melhor porque não precisamos viver suas consequências.
A consciência torna possível aprender com aquilo que fizemos.
Mas também torna possível nos condenar indefinidamente por não termos vivido aquilo que só conseguimos imaginar depois.
Também conseguimos antecipar o futuro
A mesma consciência que retorna ao passado projeta-se para frente.
Isso nos permite planejar.
É graças a essa capacidade que conseguimos organizar compromissos, construir projetos, prever riscos, estudar para uma profissão, pensar nas consequências de nossas decisões.
Mas o futuro possui uma característica particular:
ainda não existe.
E, mesmo assim, conseguimos sofrer por ele.
Podemos experimentar medo diante de acontecimentos que talvez nunca ocorram.
Podemos imaginar rejeições.
Fracassos.
Doenças.
Perdas.
Constrangimentos.
Resultados negativos.
Nosso corpo pode reagir no presente a uma realidade que existe apenas como possibilidade.
Não há contradição nisso.
A antecipação é justamente uma das maneiras pelas quais nos protegemos.
O problema aparece quando a capacidade de imaginar possibilidades deixa de nos preparar para o futuro e começa a nos prender a ele.
Nesse ponto, a pergunta deixa de ser:
“O que posso fazer diante dessa possibilidade?”
e passa a ser:
“Como posso garantir que ela nunca aconteça?”
A consciência que permite o planejamento começa então a alimentar a tentativa impossível de eliminar a incerteza.
Somos seres que vivem no tempo
Há uma dimensão importante por trás de tudo isso.
Nossa experiência não acontece apenas no presente imediato.
Carregamos passado e futuro dentro daquilo que vivemos agora.
Quando encontramos alguém, não encontramos apenas aquela pessoa naquele instante.
Encontramos também a história que possuímos com ela.
As expectativas que construímos.
Os medos relacionados ao vínculo.
As lembranças de experiências semelhantes.
As possibilidades que imaginamos para aquela relação.
O presente humano é atravessado por memória e antecipação.
É por isso que uma frase aparentemente simples pode possuir tamanho peso.
Ela nunca chega a uma consciência completamente vazia.
Encontra uma história.
E é interpretada a partir dela.
Talvez isso ajude a compreender por que duas pessoas podem viver situações muito semelhantes e atribuir sentidos profundamente diferentes a elas.
Não encontramos apenas o acontecimento.
Encontramos o acontecimento a partir de uma existência que já estava acontecendo antes dele.
A consciência também cria uma distância entre nós e nós mesmos
Há momentos em que essa capacidade reflexiva produz uma experiência curiosa.
Agimos e, simultaneamente, observamos nossa própria ação.
Estamos em uma conversa e pensamos:
“Estou falando demais.”
Estamos em uma festa e nos perguntamos:
“Será que pareço deslocado?”
Fazemos uma apresentação e pensamos:
“Será que perceberam que estou nervoso?”
A atenção que originalmente poderia estar dirigida à experiência desloca-se parcialmente para nossa própria imagem dentro dela.
Começamos a nos assistir.
Esse movimento pode ser útil.
A capacidade de perceber a nós mesmos permite ajustar comportamentos e compreender como afetamos outras pessoas.
Mas também pode produzir uma sensação de distanciamento.
Em vez de simplesmente participar de uma situação, começamos a avaliá-la continuamente a partir de fora.
Como estou parecendo?
Estou agindo corretamente?
É assim que eu deveria estar me sentindo?
Estou aproveitando o suficiente?
Às vezes, a própria tentativa de avaliar se estamos vivendo corretamente nos impede de viver aquilo que está acontecendo.
Quando o observador se transforma em juiz
Autoconsciência não é necessariamente autocrítica.
Mas as duas podem se aproximar.
Existe diferença entre perceber:
“Cometi um erro.”
e concluir:
“Sou um fracasso.”
Entre reconhecer:
“Senti inveja.”
e decidir:
“Isso prova que sou uma pessoa ruim.”
Entre perceber:
“Tenho dificuldade nesta situação.”
e transformar essa dificuldade em:
“Há alguma coisa fundamentalmente errada comigo.”
No primeiro movimento, observamos uma experiência.
No segundo, produzimos uma sentença sobre nós.
É uma passagem pequena na linguagem e enorme psicologicamente.
Um acontecimento particular transforma-se em identidade.
Um comportamento vira caráter.
Uma dificuldade vira essência.
A autoconsciência passa então de instrumento de compreensão a mecanismo de condenação.
Existe um tribunal que carregamos conosco
Muitas pessoas vivem como se houvesse permanentemente uma plateia diante delas.
Não necessariamente porque alguém esteja realmente observando.
Mas porque aprenderam a observar a si mesmas a partir de perspectivas que um dia vieram de fora.
As expectativas familiares.
As críticas recebidas.
Os padrões sociais.
As exigências profissionais.
As comparações.
Os ideais culturais sobre sucesso, beleza, produtividade, inteligência, masculinidade, feminilidade, relacionamentos ou felicidade.
Com o tempo, aquilo que inicialmente era uma voz externa pode passar a funcionar internamente.
Não precisamos mais ouvir alguém dizendo:
“Você deveria ser melhor.”
Podemos dizer isso a nós mesmos.
Não precisamos mais de alguém nos comparando.
Aprendemos a fazer a comparação sozinhos.
O outro deixa de estar fisicamente presente.
Mas seu olhar permanece.
Sartre e o olhar do outro
Jean-Paul Sartre explorou de maneira particularmente intensa essa dimensão da experiência.
O outro não é apenas alguém que vemos.
É também alguém capaz de nos ver.
E quando percebemos que podemos ser vistos, algo muda.
Aquilo que, para nós, era simplesmente ação passa também a poder existir como imagem para outra consciência.
Essa experiência aparece de maneira evidente na vergonha.
Não precisamos concordar com toda a filosofia sartreana para reconhecer a força dessa descrição.
Há algo profundamente humano em perceber:
“Eu não sou apenas aquilo que sou para mim. Também apareço de alguma maneira para os outros.”
O problema é que nunca controlamos completamente essa aparição.
Não sabemos exatamente como somos percebidos.
Então imaginamos.
E aquilo que imaginamos pode adquirir enorme poder.
A vergonha revela essa divisão
Na vergonha, não estamos apenas conscientes de determinada ação.
Estamos conscientes de nós mesmos como alguém que poderia ser visto e julgado.
“Como puderam me ver daquela maneira?”
“O que pensarão de mim?”
“Será que agora me enxergam como incompetente?”
“Será que perceberam aquilo que eu queria esconder?”
A experiência não precisa sequer envolver um julgamento real.
Às vezes, basta imaginar o olhar do outro.
Isso mostra uma característica importante de nossa autoconsciência:
aprendemos a olhar para nós utilizando perspectivas que não são inteiramente nossas.
Esse movimento participa da vida social.
Sem alguma capacidade de imaginar o outro, seria difícil construir empatia, responsabilidade ou convivência.
Mas, levado ao extremo, pode produzir uma existência organizada principalmente em torno da tentativa de controlar aquilo que os outros pensam.
Então, em vez de perguntar:
“Como desejo viver?”
começamos a perguntar:
“Como preciso parecer?”
Podemos nos transformar em um projeto para os outros
Existe uma diferença entre querer ser reconhecido — algo profundamente humano — e construir toda a existência como uma tentativa de produzir determinada imagem.
Podemos escolher uma carreira porque ela faz sentido.
Mas também podemos escolhê-la porque imaginamos o reconhecimento associado a ela.
Podemos publicar uma fotografia porque gostamos dela.
Ou porque precisamos que determinado retorno confirme alguma coisa sobre nós.
Podemos permanecer em uma relação porque desejamos aquele vínculo.
Ou porque o término produziria uma imagem de fracasso que não conseguimos suportar.
A questão não é condenar nenhuma dessas motivações.
Quase nunca agimos por uma razão única.
Mas a autoconsciência permite uma pergunta desconfortável:
quanto da vida que estou construindo pertence aos meus valores — e quanto está sendo organizado para sustentar uma determinada imagem de quem eu deveria ser?
A comparação torna-se possível porque conseguimos transformar a nós mesmos em objeto
Para comparar duas coisas, precisamos de alguma maneira colocá-las lado a lado.
Fazemos isso também conosco.
Observamos outra pessoa e pensamos:
“Ela já chegou onde eu gostaria de estar.”
“Ele parece muito mais seguro.”
“Ela tem uma vida mais organizada.”
“Eu deveria estar naquele estágio.”
A comparação humana não acontece apenas entre características presentes.
Ela envolve narrativas inteiras.
Comparamos nosso bastidor com aquilo que conseguimos observar da vida de alguém.
Nossa incerteza com a segurança que outra pessoa aparenta.
Nossos fracassos conhecidos com os resultados visíveis do outro.
E, talvez mais importante, comparamos nossa existência real com ideais abstratos sobre como deveríamos estar vivendo.
Existe uma idade correta para ter sucesso.
Uma maneira correta de amar.
Um ritmo correto para amadurecer.
Um corpo correto.
Uma profissão correta.
Uma quantidade correta de felicidade.
A autoconsciência nos permite perceber onde estamos.
Mas os critérios utilizados para avaliar esse lugar nem sempre foram escolhidos por nós.
“Quem sou?” pode parecer uma pergunta simples
Talvez uma das perguntas mais antigas da filosofia e da Psicologia seja:
“Quem sou eu?”
Há algo fascinante nela.
Mas talvez também exista uma armadilha.
A pergunta pode sugerir que existe, em algum lugar dentro de nós, uma resposta definitiva esperando ser descoberta.
Como se houvesse um núcleo completamente pronto.
Uma identidade final.
Uma essência escondida que, se encontrada, resolveria todas as nossas dúvidas.
Mas nossa existência não parece funcionar de maneira tão estática.
Somos atravessados por uma história.
Por relações.
Por condições sociais.
Por escolhas.
Por acontecimentos que nunca poderíamos ter previsto.
E continuamos nos transformando.
Talvez autoconhecimento não signifique finalmente descobrir quem realmente somos como quem encontra uma resposta definitiva.
Talvez signifique compreender cada vez melhor:
como estamos existindo;
como chegamos até aqui;
que relações nos constituíram;
que valores estamos assumindo;
e quem estamos nos tornando através daquilo que fazemos.
A consciência transforma identidade em problema
Uma pedra não precisa perguntar se está vivendo de acordo com aquilo que deveria ser.
Nós perguntamos.
E talvez essa seja uma das fontes mais profundas da inquietação humana.
Não apenas existimos.
Também somos capazes de perceber uma distância entre:
quem somos;
quem fomos;
quem gostaríamos de ser;
quem acreditamos que deveríamos ser;
e quem imaginamos que os outros esperam que sejamos.
Essas versões podem coexistir e entrar em conflito.
“Quero isso, mas acho que deveria querer aquilo.”
“Escolhi esta vida, mas imaginava que seria outra pessoa.”
“Sou assim quando estou sozinho, mas sinto que preciso parecer diferente diante dos outros.”
“Sei que mudei, mas continuo tentando corresponder à pessoa que fui.”
A consciência torna possível perceber essas contradições.
E perceber uma contradição pode ser doloroso.
Mas também é o primeiro passo para poder se relacionar com ela de outra maneira.
Consciência não significa transparência
Existe ainda outro paradoxo.
Podemos observar a nós mesmos.
Mas isso não significa que compreendemos completamente aquilo que observamos.
Nem sempre sabemos por que reagimos de determinada maneira.
Podemos justificar uma escolha sem reconhecer todas as motivações envolvidas.
Podemos acreditar que conhecemos exatamente nossos valores e depois agir de maneira que nos surpreende.
Podemos descobrir, em uma relação, aspectos de nós que nunca haviam aparecido.
Isso significa que a autoconsciência não nos transforma em observadores neutros da própria existência.
Somos simultaneamente:
quem observa e quem é observado.
Nossa história participa do próprio olhar que utilizamos para interpretar nossa história.
Nossos medos influenciam aquilo que percebemos.
Nossos desejos participam das explicações que construímos.
Aquilo que tentamos compreender não está separado daquele que compreende.
Por isso, talvez seja mais cuidadoso falar em processo de autocompreensão do que em posse definitiva de autoconhecimento.
A psicoterapia e a possibilidade de um outro olhar
Talvez uma das funções mais interessantes da psicoterapia apareça justamente aqui.
Não oferecer ao paciente uma explicação definitiva sobre quem ele é.
Mas criar condições para que ele consiga observar a própria experiência de maneiras que antes não estavam disponíveis.
Às vezes, alguém chega dizendo:
“Eu sou assim.”
“Eu sempre fui desse jeito.”
“Esse é simplesmente meu problema.”
Mas, ao longo do processo, uma afirmação que parecia descrever uma essência pode começar a se transformar em pergunta.
“Em quais situações isso acontece?”
“Quando comecei a me perceber dessa forma?”
“Com quem aprendi que eu precisava agir assim?”
“O que estou tentando proteger quando faço isso?”
“Isso continua sendo necessário?”
Esse movimento é importante.
A pessoa deixa de ser apenas objeto de sua própria sentença.
Começa a tornar-se investigadora de sua própria experiência.
Observar não precisa significar julgar
Existe uma diferença profunda entre dizer:
“Percebo que faço isso.”
e
“Eu não deveria ser alguém que faz isso.”
Na primeira frase, existe abertura.
Na segunda, talvez já exista uma sentença.
Uma postura de investigação permite perguntar:
Quando isso acontece?
Que função possui?
O que antecede?
O que sinto?
Que consequências aparecem?
Que possibilidades existem?
Já uma postura exclusivamente julgadora tende a fechar a experiência.
“Isso é errado.”
“Tenho que parar.”
“Não posso sentir isso.”
O paradoxo é que, muitas vezes, quanto mais tentamos expulsar uma experiência antes de compreendê-la, mais ela domina nossa atenção.
Talvez uma forma diferente de autoconsciência seja possível.
Não aquela que fiscaliza continuamente a existência.
Mas aquela que consegue permanecer curiosa diante dela.
Há uma diferença entre reflexão e ruminação
Pensar sobre si mesmo pode produzir compreensão.
Mas também pode produzir repetição.
Na reflexão, algo se transforma.
Percebemos relações novas.
Uma hipótese aparece.
Um significado é reorganizado.
Uma decisão começa a se formar.
Na ruminação, frequentemente retornamos às mesmas perguntas sem que novas informações apareçam.
“Por que fiz isso?”
“Mas por quê?”
“Como pude?”
“O que isso significa?”
“E se...?”
O pensamento gira.
Não porque esteja se aproximando de uma resposta.
Mas talvez porque exista dificuldade em aceitar que determinada resposta completa não existe.
Isso revela uma diferença importante.
Pensar muito sobre si não significa necessariamente conhecer-se melhor.
Às vezes, pode signific apenas estar preso ao próprio olhar.
A autoconsciência pode transformar-se em hipervigilância sobre si
Quando cada gesto precisa ser avaliado, a espontaneidade torna-se difícil.
A pessoa fala e simultaneamente revisa aquilo que está falando.
Entra em uma sala e monitora a postura.
Observa o rosto de cada pessoa tentando descobrir como está sendo percebida.
Depois do encontro, reconstrói mentalmente tudo aquilo que fez.
Esse processo pode produzir uma sensação de estar permanentemente em apresentação.
Como se não fosse possível simplesmente estar.
É preciso performar adequadamente a própria existência.
Ser interessante.
Ser inteligente.
Ser tranquilo.
Ser produtivo.
Ser bonito.
Ser desejável.
Ser moralmente correto.
Ser emocionalmente equilibrado.
Ser aquilo que acreditamos que deveríamos ser.
E talvez uma das experiências mais cansativas seja justamente esta:
não poder esquecer de si mesmo nem por alguns instantes.
Mas “esquecer de si” também faz parte de viver
Há momentos em que estamos tão envolvidos em uma experiência que o observador parece recuar.
Uma conversa realmente interessante.
Uma música.
Um trabalho que nos absorve.
Uma caminhada.
Um encontro.
Uma atividade criativa.
Durante alguns instantes, não estamos perguntando:
“Como estou me saindo?”
Estamos simplesmente participando.
Isso não significa perda de consciência.
Significa que nossa atenção deixou de estar excessivamente voltada para a própria imagem.
Talvez exista algo importante nessa alternância.
Precisamos da capacidade de voltar o olhar para nós.
Mas talvez não precisemos permanecer o tempo inteiro diante de um espelho interno.
A liberdade nasce justamente da distância reflexiva
Até aqui, a autoconsciência poderia parecer apenas um peso.
Mas existe outra face.
Imagine que não conseguíssemos observar nossos próprios padrões.
Repetiríamos sem perceber.
Imagine que não pudéssemos questionar valores aprendidos.
Aquilo que recebemos de nossa história seria simplesmente reproduzido.
Imagine que não pudéssemos reconhecer que uma maneira de viver já não faz sentido.
Não haveria pergunta.
É justamente porque conseguimos criar alguma distância reflexiva que podemos dizer:
“Tenho vivido assim — mas não preciso necessariamente continuar vivendo exatamente dessa maneira.”
Essa frase contém uma possibilidade extraordinária.
Entre aquilo que fomos e aquilo que seremos existe algum espaço de transformação.
Não ilimitado.
Não absoluto.
Mas real.
História não é destino, mas também não é irrelevante
Uma compreensão ingênua da liberdade poderia afirmar:
“Basta escolher diferente.”
Mas ninguém escolhe a partir do nada.
Nossa maneira de perceber possibilidades já foi construída dentro de uma história.
Aprendemos formas de relação.
Modos de interpretar o mundo.
Maneiras de proteger a nós mesmos.
Valores.
Medos.
Expectativas.
Condições sociais e materiais também delimitam aquilo que é possível.
Por isso, reconhecer que podemos refletir sobre nossa história não significa imaginar que podemos simplesmente transcendê-la por vontade.
A liberdade humana é situada.
Escolhemos a partir de algum lugar.
Mas talvez a consciência permita justamente tornar esse lugar mais visível.
E quando algo se torna visível, pode deixar de operar apenas de maneira automática.
Sartre e a recusa de uma identidade definitiva
Uma das provocações mais conhecidas do existencialismo sartreano está na ideia de que a existência precede a essência.
A formulação não significa que não tenhamos características, história ou condicionamentos.
Ela questiona a ideia de que nascemos com uma definição humana completamente pronta que determinará antecipadamente quem devemos ser.
Existimos.
Encontramo-nos em determinadas circunstâncias.
E, ao longo da vida, participamos da construção de quem nos tornamos.
Isso produz liberdade.
Mas também responsabilidade.
Porque se não existe uma definição final capaz de determinar completamente aquilo que somos, não podemos descansar inteiramente sobre a frase:
“Sou assim.”
Sempre existe alguma tensão entre aquilo que já construímos e aquilo que ainda podemos fazer com isso.
Essa abertura pode ser libertadora.
Mas pode também ser angustiante.
Porque significa que nunca estamos completamente terminados.
Talvez não exista uma versão definitiva de nós mesmos
Há uma fantasia de que, em algum momento, finalmente chegaremos.
Descobriremos quem somos.
Resolveremos todas as contradições.
Teremos valores completamente estáveis.
Nunca mais duvidaremos das escolhas.
Nossa identidade estará concluída.
Mas talvez uma existência humana não funcione assim.
Mudamos porque o mundo muda.
Porque relações nos transformam.
Porque perdemos coisas.
Porque aprendemos.
Porque envelhecemos.
Porque aquilo que fazia sentido em determinado momento pode deixar de fazer.
Isso não significa que não exista continuidade.
Existe uma história.
Há compromissos.
Há maneiras relativamente estáveis de ser.
Mas continuidade não precisa significar imutabilidade.
Talvez a pergunta “Quem sou?” nunca seja respondida definitivamente porque continuamos participando da própria resposta.
A liberdade pode ser pesada justamente porque sabemos que escolhemos
Se fôssemos completamente determinados e soubéssemos disso, talvez certas formas de culpa e angústia desaparecessem.
Mas experimentamos a sensação de que poderíamos ter agido de outra maneira.
Isso torna possível responsabilidade.
Mas torna possível também um julgamento retrospectivo incessante.
Kierkegaard relacionou a angústia à liberdade justamente porque perceber possibilidades significa também perceber nossa participação naquilo que fazemos com elas.
A liberdade não aparece apenas como privilégio.
Pode aparecer como vertigem.
“E se eu escolher errado?”
“E se eu me tornar alguém de quem não gosto?”
“E se estiver desperdiçando minha vida?”
Talvez por isso desejemos tantas vezes que alguém nos diga qual caminho é correto.
Uma resposta definitiva eliminaria parte do peso da escolha.
Mas também eliminaria parte de nossa autoria.
Responsabilidade não precisa significar condenação
Existe uma diferença entre assumir responsabilidade e punir-se.
Responsabilidade pergunta:
“Qual foi minha participação nisso?”
Condenação afirma:
“Aquilo que aconteceu define quem sou.”
Responsabilidade pode reconhecer:
“Eu feri alguém.”
“Eu fui omisso.”
“Eu deveria ter feito diferente.”
“Preciso reparar aquilo que estiver ao meu alcance.”
Mas ela não exige necessariamente transformar um ato em uma essência eterna.
Uma pessoa pode ter agido mal sem precisar concluir que é, em sua totalidade, uma pessoa irremediavelmente ruim.
Essa distinção é importante porque transformação exige responsabilidade.
Mas transformação também exige que exista algum futuro depois do erro.
Se o passado define completamente aquilo que somos, não existe espaço para mudança.
Ser autor não significa ser autor de tudo
A linguagem existencial da escolha pode ser mal compreendida quando transformada na ideia de que somos responsáveis por tudo aquilo que nos acontece.
Não somos.
Não escolhemos onde nascemos.
Não escolhemos boa parte de nossa história inicial.
Não escolhemos diversas formas de violência, perdas, doenças ou circunstâncias que nos atravessam.
Não possuímos controle absoluto sobre as condições sociais em que vivemos.
A liberdade não significa autoria completa dos acontecimentos.
Talvez seja mais adequado dizer que participamos, em graus diferentes, da construção da relação que estabelecemos com aquilo que encontramos.
E mesmo essa margem pode ser profundamente limitada em determinadas circunstâncias.
Portanto, uma compreensão existencial responsável precisa preservar as duas dimensões:
somos condicionados;
mas não necessariamente somos completamente reduzidos aos condicionamentos.
A consciência também nos permite reconhecer os próprios limites
Autoconsciência não serve apenas para imaginar possibilidades.
Pode também permitir reconhecer impossibilidades.
“Não consigo controlar isso.”
“Esse relacionamento não depende apenas de mim.”
“Não posso voltar ao passado.”
“Não posso ser todas as pessoas que imaginei.”
“Existem limites no meu corpo.”
“Existem limites no tempo.”
“Existem circunstâncias que não escolhi.”
Reconhecer limites pode produzir sofrimento.
Mas há também alguma liberdade em deixar de exigir de nós mesmos aquilo que nunca esteve disponível.
Nem toda possibilidade precisa permanecer aberta.
Nem todo ideal precisa ser alcançado.
Nem toda expectativa precisa continuar definindo a maneira como nos avaliamos.
Talvez parte da autocompreensão seja também aprender onde terminamos.
A pergunta “o que isso diz sobre mim?” nem sempre precisa ser feita
Depois de qualquer dificuldade, podemos transformar imediatamente a situação em uma questão identitária.
Uma rejeição:
“O que existe de errado comigo?”
Um erro profissional:
“Talvez eu não seja competente.”
Um conflito:
“Talvez eu seja uma pessoa difícil.”
Uma fase de cansaço:
“Estou me tornando fraco.”
Mas nem todo acontecimento precisa revelar uma verdade profunda sobre nossa identidade.
Às vezes, um erro é um erro.
Um dia ruim é um dia ruim.
Uma rejeição significa que determinado vínculo não se constituiu como desejávamos.
Nem tudo precisa ser convertido em diagnóstico sobre quem somos.
A autoconsciência também pode aprender a não interpretar excessivamente.
Talvez exista uma forma mais gentil de observar a própria experiência
Gentileza não significa complacência.
Também não significa negar erros ou dificuldades.
Significa talvez substituir algumas perguntas.
Em vez de:
“O que há de errado comigo?”
perguntar:
“O que está acontecendo comigo?”
Em vez de:
“Por que sou assim?”
perguntar:
“Quando comecei a funcionar dessa maneira e o que isso tem significado?”
Em vez de:
“Como faço isso desaparecer?”
perguntar:
“O que preciso compreender antes de decidir o que quero fazer com isso?”
A mudança parece pequena.
Mas altera profundamente o lugar de onde observamos a nós mesmos.
De réu para investigador.
De problema para experiência.
De sentença para pergunta.
Talvez a psicoterapia comece justamente onde a resposta automática termina
Em muitos momentos, chegamos ao consultório trazendo conclusões prontas.
“Sou inseguro.”
“Tenho dificuldade de confiar.”
“Escolho pessoas erradas.”
“Não consigo dizer não.”
“Sou muito ansioso.”
Essas afirmações podem descrever algo real.
Mas também podem ser apenas o início da investigação.
A pergunta psicoterapêutica pode ser:
Como isso acontece?
Em quais relações?
Desde quando?
Que sentido possui?
O que essa maneira de funcionar protege?
O que custa mantê-la?
Que outras possibilidades existem?
Nesse processo, aquilo que parecia uma característica fixa pode começar a mostrar uma história.
E quando encontramos uma história, talvez também possamos encontrar algum movimento.
O objetivo talvez não seja silenciar o observador
É tentador imaginar que a solução para o excesso de autoconsciência seria simplesmente parar de pensar sobre si.
Mas talvez não seja possível — nem desejável — abandonar justamente uma capacidade que participa de nossa liberdade.
A questão pode ser outra:
que tipo de relação estamos estabelecendo com esse observador?
Ele precisa registrar cada falha?
Comparar constantemente?
Prever todo julgamento?
Exigir explicações definitivas?
Ou pode também perceber?
Perguntar?
Reconhecer limites?
Aprender?
Reconsiderar?
Perdoar?
A consciência não precisa funcionar apenas como tribunal.
Pode funcionar como espaço de abertura.
Existe uma diferença entre perceber-se e aprisionar-se na própria imagem
Uma identidade pode nos oferecer continuidade.
Dizer “sou psicólogo”, “sou pai”, “sou tímido”, “sou responsável”, “sou independente” ajuda a organizar a experiência.
Mas qualquer identidade pode se tornar prisão quando deixa de admitir movimento.
“Eu sempre fui assim.”
“Não sou esse tipo de pessoa.”
“Não posso mudar agora.”
“Todo mundo me conhece dessa maneira.”
Às vezes, permanecemos em determinadas escolhas não porque ainda façam sentido, mas porque abandoná-las exigiria modificar a narrativa que construímos sobre quem somos.
A consciência pode então proteger uma identidade antiga mesmo quando a experiência atual começa a contradizê-la.
Talvez uma das formas mais difíceis de mudança seja admitir:
“A pessoa que eu era não precisa determinar completamente a pessoa que ainda posso me tornar.”
Somos simultaneamente obra e autor — mas nunca autores soberanos
Há uma imagem possível para nossa condição.
Somos, ao mesmo tempo, aquilo que foi sendo construído e alguém que continua participando da construção.
Carregamos marcas que não escolhemos.
Recebemos uma história.
Um corpo.
Uma época.
Relações.
Condições.
Mas também respondemos.
Interpretamos.
Escolhemos dentro de determinadas possibilidades.
Repetimos algumas coisas.
Transformamos outras.
Talvez a dificuldade esteja em aceitar as duas dimensões sem eliminar nenhuma.
Se acreditarmos que somos autores absolutos, transformamos qualquer sofrimento em falha individual.
Se acreditarmos que somos apenas produto das circunstâncias, eliminamos qualquer possibilidade de participação em nossa própria existência.
A realidade provavelmente é mais complexa.
Somos construídos e continuamos nos construindo.
A ambivalência da consciência talvez não possa ser resolvida
Queremos poder lembrar.
Mas lembrar permite arrependimento.
Queremos imaginar o futuro.
Mas imaginar permite ansiedade.
Queremos perceber como somos vistos.
Mas isso permite vergonha.
Queremos compreender quem somos.
Mas isso permite comparação e julgamento.
Queremos liberdade.
Mas a liberdade traz responsabilidade.
Talvez não exista uma maneira de preservar todas as possibilidades da consciência eliminando completamente seus custos.
Essa ambivalência talvez pertença à própria estrutura de uma existência reflexiva.
Não precisamos, portanto, perguntar apenas:
“Como faço para deixar de sofrer por pensar sobre mim?”
Talvez possamos perguntar:
“Como posso utilizar essa capacidade sem transformá-la em uma forma permanente de vigilância e condenação?”
Talvez a consciência não tenha nos libertado do peso de existir
Talvez ela tenha feito algo mais complexo.
Tornou esse peso visível.
Sabemos que vamos perder.
Sabemos que nossas escolhas fecham caminhos.
Sabemos que somos vistos.
Sabemos que podemos errar.
Sabemos que nossa vida poderia ser diferente.
Sabemos que o tempo passa.
Sabemos que um dia terminaremos.
Essa consciência pode parecer uma condenação.
Mas existe outra possibilidade.
Porque sabemos que o tempo passa, podemos perguntar o que desejamos fazer com ele.
Porque percebemos que repetimos determinados padrões, podemos interrogá-los.
Porque sabemos que nossas escolhas produzem consequências, podemos assumir responsabilidade.
Porque conseguimos imaginar outras possibilidades, podemos construir projetos.
Porque percebemos que não somos definitivos, podemos mudar.
Talvez a mesma consciência que revela o peso da existência revele também sua abertura.
Não somos apenas observadores
Esse talvez seja o ponto mais importante.
Podemos passar tanto tempo observando a própria vida que esquecemos uma coisa:
ainda estamos dentro dela.
Enquanto avaliamos quem somos, continuamos nos tornando.
Enquanto pensamos sobre a escolha correta, o tempo continua passando.
Enquanto imaginamos como estamos sendo percebidos, relações continuam acontecendo.
Enquanto analisamos a própria história, novos acontecimentos já começam a fazer parte dela.
Não somos apenas espectadores diante da nossa existência.
Somos também aqueles que precisam vivê-la.
E talvez haja momentos em que a pergunta mais importante não seja:
“O que isso revela sobre quem eu sou?”
Mas simplesmente:
“O que quero fazer agora, diante daquilo que consigo compreender?”
Para pensar
Talvez valha observar a maneira como você costuma voltar o olhar para si mesmo.
Quando percebe um erro, procura compreendê-lo ou imediatamente transforma-o em julgamento?
Quando sente algo difícil, pergunta o que está vivendo ou pergunta o que há de errado com você?
Quando imagina o olhar dos outros, ele ajuda a considerar o impacto de suas ações ou passa a determinar quem acredita que precisa ser?
Quando pensa no passado, utiliza a consciência adquirida para aprender — ou para exigir de quem você foi aquilo que só consegue saber agora?
Quando pensa no futuro, imagina possibilidades para orientar suas escolhas — ou tenta antecipá-las até que nenhuma incerteza permaneça?
Talvez a autoconsciência seja simultaneamente uma das maiores possibilidades e um dos maiores pesos da condição humana.
Ela nos permite transformar nossa própria existência em pergunta.
E perguntas podem nos atormentar.
Mas também podem abrir caminhos.
A diferença talvez esteja em como aprendemos a permanecer diante delas.
Porque observar a si mesmo pode se transformar em uma prisão quando cada experiência precisa produzir uma sentença sobre quem somos.
Mas pode se tornar liberdade quando o olhar deixa de perguntar apenas:
“Quem sou eu?”
e começa também a perguntar:
“Diante de tudo aquilo que me constituiu, quem estou me tornando — e como desejo participar dessa construção?”
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