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Bets: escolha individual ou compulsão socialmente projetada?

Foto do escritor: João Victor G. Sandoval
João Victor G. Sandoval
14 de set.
14 min de leitura

Atualizado: 17 de set.

A expansão das apostas on-line no Brasil tornou insuficiente a imagem tradicional do jogo como uma atividade ocasional, realizada num lugar e num horário específicos. O cassino, a loteria e a casa de apostas foram incorporados ao celular. A possibilidade de apostar acompanha o indivíduo durante o trabalho, o deslocamento, as refeições, os encontros familiares e até a madrugada.

Em 2025, 79 empresas autorizadas informaram a participação de 25,2 milhões de brasileiros no mercado regulado de apostas de quota fixa. Desde janeiro daquele ano, somente operadoras autorizadas podem atuar nacionalmente, por meio de endereços terminados em “.bet.br.” Esses números não incluem integralmente o mercado ilegal e não significam que todos os participantes apresentem uso problemático, mas mostram a extensão alcançada pelo fenômeno.

A questão filosófica central pode ser formulada assim: quando alguém aposta repetidamente, estamos diante de uma escolha individual ou de uma compulsão produzida por condições sociais e tecnológicas?

A resposta mais consistente não se encontra em nenhum dos extremos. A pessoa não é absolutamente soberana diante da plataforma, mas também não é uma máquina completamente determinada por ela. Existe liberdade, porém uma liberdade situada, vulnerável e capaz de sofrer estreitamentos.

A experiência da aposta

Antes de classificar a aposta como diversão, vício ou irresponsabilidade, é necessário descrever como ela modifica a experiência.

A aposta reorganiza o tempo. O presente passa a ser vivido em função de um resultado futuro: o gol, o cartão, o escanteio, o sorteio ou a próxima rodada. O instante atual perde parte de sua densidade e transforma-se numa espera carregada de tensão.

Quando ocorre uma perda, ela não aparece necessariamente como encerramento. Pode ser interpretada como algo que a aposta seguinte reparará. O futuro assume a forma de uma promessa: “na próxima eu recupero”.

Forma-se, então, uma temporalidade circular:

expectativa → aposta → tensão → resultado → perda → promessa de recuperação → nova aposta

Embora cada rodada pareça oferecer uma nova oportunidade, o movimento pode conservar a pessoa no mesmo lugar. Há repetição sem verdadeira transformação.

A aposta também modifica o espaço. O estádio deixa de ser somente o lugar de uma experiência esportiva e passa a ser percebido como um conjunto de oportunidades financeiras. O jogador não é visto apenas por sua habilidade, mas como produtor de gols, cartões, passes e estatísticas. Cada momento da partida pode ser convertido em objeto de especulação.

Por fim, a aposta modifica o corpo. A expectativa aparece como aceleração, vigilância, inquietação e descarga emocional. Ganhos e perdas não são somente informações financeiras; são acontecimentos corporais. Em alguns casos, a pessoa já não procura propriamente o dinheiro, mas a intensidade produzida pelo risco.

O presente sacrificado ao próximo resultado

A promessa da aposta é sempre futura: a próxima rodada poderá corrigir o passado e modificar repentinamente a vida.

Isso produz um paradoxo. O apostador busca uma transformação, mas pode permanecer aprisionado numa sucessão de adiamentos. A vida real, com sua lentidão, seus limites e suas incertezas, parece menos suportável quando comparada à possibilidade imaginada de uma mudança instantânea.

O dinheiro apostado também adquire um significado diferente do dinheiro cotidiano. Cem reais destinados à alimentação, ao transporte ou a uma conta aparecem como uma quantia concreta. Os mesmos cem reais colocados numa plataforma podem parecer a passagem para um ganho muito maior.

Essa transformação simbólica diminui a percepção da perda. O valor deixa de aparecer apenas como algo possuído e passa a ser vivido como aquilo que poderia multiplicar-se.

Quanto mais significativa for a expectativa de transformação, mais difícil pode ser abandonar a aposta. Parar não significa somente aceitar o prejuízo financeiro. Pode significar renunciar à narrativa segundo a qual ainda existe uma saída rápida para a situação presente.

A aposta como fantasia de transformação social

O apostador nem sempre procura apenas dinheiro. Pode buscar esperança, excitação, pertencimento, reconhecimento, alívio da ansiedade ou suspensão momentânea de uma experiência de impotência.

Esse aspecto é particularmente relevante em contextos de precariedade econômica. Para quem percebe poucas possibilidades concretas de mobilidade social, o acaso pode aparecer como uma abertura que o trabalho, a educação e as instituições deixaram de oferecer.

A aposta promete uma forma peculiar de transcendência: sair rapidamente da situação atual sem atravessar os processos demorados e incertos pelos quais a vida normalmente se transforma.

Não se deve concluir que pessoas pobres apostam porque são incapazes de compreender probabilidades. A atração pode nascer justamente da percepção realista de que as vias convencionais de ascensão são estreitas.

A plataforma oferece uma resposta privada e instantânea para um sofrimento social. Em vez de transformar coletivamente as condições de vida, o indivíduo é convidado a tentar escapar sozinho por meio da sorte.

Isso não torna a aposta racional em termos matemáticos. Torna compreensível o sentido existencial que ela pode adquirir.

A desigualdade também modifica o significado do risco. Perder cem reais não produz a mesma consequência para todas as pessoas. O valor é numericamente idêntico, mas existencialmente diferente. Para uma família vulnerável, pode representar alimentação, transporte, medicamentos ou parte do aluguel.

O risco não está apenas no produto. Surge da relação entre o produto, a renda, a história da pessoa e as condições do seu mundo.

Quando a escolha começa a estreitar-se

É comum imaginar a relação entre liberdade e compulsão como uma alternativa simples: ou a pessoa escolhe, ou perdeu completamente a capacidade de escolher.

Na experiência concreta, porém, existe um processo gradual de estreitamento.

No começo, apostar pode ser uma decisão ocasional. Com a repetição, a atividade passa a organizar expectativas, afetos, horários e relações. A pessoa ainda realiza escolhas, mas encontra cada vez menos alternativas capazes de competir com a promessa da próxima aposta.

A compulsão não precisa ser entendida como ausência total de vontade. Ela pode ser compreendida como uma reorganização do campo de possibilidades. A pessoa vê muitas oportunidades para continuar apostando e poucas possibilidades emocionalmente convincentes de parar.

·      O mundo começa a ser percebido a partir da aposta:

·      jogos esportivos tornam-se oportunidades financeiras;

·      dinheiro disponível transforma-se em saldo potencial;

·      derrotas tornam-se valores a recuperar;

·      empréstimos aparecem como pontes para a próxima tentativa;

·      familiares tornam-se obstáculos, fiscais ou possíveis fontes de recursos;

·      momentos sem aposta são vividos como tédio, ansiedade ou perda de oportunidade.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, o transtorno do jogo envolve prejuízo no controle, prioridade crescente concedida à atividade e continuidade apesar das consequências negativas. A OMS também ressalta que danos podem ocorrer muito antes de a pessoa alcançar o limiar de um diagnóstico, afetando finanças, moradia, alimentação, saúde e relações familiares.

Isso impede dois erros. Nem todo apostador possui um transtorno, mas também não é necessário esperar um diagnóstico para reconhecer sofrimento e prejuízo.

A plataforma não é um ambiente neutro

A expressão “escolha individual” pode sugerir que a pessoa encontra opções apresentadas de maneira neutra e decide racionalmente entre elas. Uma plataforma digital de apostas, entretanto, é uma arquitetura de escolhas.

Cores, sons, bônus, notificações, apostas em tempo real, recompensas, metas e ofertas personalizadas podem ser organizados para aumentar a permanência, a frequência e o retorno do usuário.

O Ministério da Saúde destaca que a disponibilidade contínua, as notificações, os bônus, as apostas ao vivo e as recompensas variáveis podem estimular a repetição e levar algumas pessoas a apostar mais tempo ou gastar mais do que pretendiam.

Um experimento sobre incentivos em apostas esportivas encontrou aumento superior a 10% no valor gasto quando os participantes recebiam promoções. Os incentivos também reduziram quase pela metade a proporção de pessoas que decidiam não apostar. Isso não demonstra que toda promoção produzirá compulsão, mas mostra que bônus e ofertas modificam concretamente o comportamento.

A assimetria entre usuário e plataforma é significativa. A pessoa conhece apenas uma pequena parte do funcionamento do sistema. A empresa, por outro lado, pode acompanhar horários, valores, frequência, preferências, tentativas interrompidas e respostas anteriores a promoções.

A casa de apostas não administra somente probabilidades. Pode administrar a atenção do apostador.

Essa assimetria torna insuficiente afirmar que cada aposta foi autorizada por um clique. O consentimento formal não elimina a influência do ambiente no qual a decisão foi produzida.

A diferença entre persuasão e exploração

Toda atividade comercial procura influenciar escolhas. O problema ético surge quando a influência depende do enfraquecimento da capacidade de interromper o consumo.

Uma plataforma pode facilitar a entrada, tornar o depósito imediato e, simultaneamente, introduzir dificuldades para visualizar perdas, estabelecer limites ou afastar-se. Também pode apresentar a desistência como perda de uma oportunidade que estaria prestes a acontecer.

Esse desenho explora vieses conhecidos:

·      a tendência de perseguir prejuízos;

·      a impressão de que uma sequência de derrotas aumenta a chance de vitória;

·      a supervalorização de ganhos recentes;

·      a percepção de quase acertos como sinal de aproximação;

·      a ilusão de possuir controle sobre resultados aleatórios;

·      a dificuldade de abandonar algo no qual já se investiu tempo e dinheiro.

O usuário pode saber abstratamente que a casa possui vantagem e, ainda assim, sentir que sua situação particular será diferente. Conhecer a probabilidade não elimina necessariamente a esperança mobilizada pela aposta.

A questão ética decisiva passa a ser: o sistema lucra oferecendo uma atividade de risco compreensível ou lucra dificultando que determinadas pessoas percebam e interrompam seu próprio envolvimento?

A colonização do esporte

A relação entre apostas e esporte merece atenção específica. A publicidade não aparece apenas nos intervalos. Ela ocupa uniformes, estádios, transmissões, programas de análise, redes sociais e falas de influenciadores.

Com isso, apostar pode deixar de ser percebido como uma atividade comercial adicional e passar a aparecer como parte natural da experiência esportiva.

O torcedor é convidado a converter conhecimento, paixão e pertencimento em expectativa de lucro. A familiaridade com um time pode produzir a impressão de competência preditiva, embora conhecer o esporte não elimine a incerteza do resultado nem a vantagem estrutural da operadora.

A própria experiência da partida se transforma. Um gol do time pode ser vivido como frustração caso prejudique a aposta. Uma jogada deixa de ser importante por seu sentido esportivo e passa a importar por seu impacto financeiro.

O esporte, que poderia criar convivência, identidade coletiva e experiência corporal, é reorganizado como sequência de eventos monetizáveis.

A presença constante das marcas também normaliza a atividade para crianças e adolescentes antes que possam avaliar adequadamente seus riscos. Não é necessário que apostem imediatamente. A publicidade pode antecipadamente formar o horizonte no qual, ao atingir a maioridade, apostar já parecerá uma dimensão comum e esperada do esporte.

“Jogue com responsabilidade”: uma liberdade sem condições?

A ideia de “jogo responsável” contém uma ambiguidade.

Por um lado, limites, alertas, pausas e autoexclusão podem ajudar pessoas a recuperar controle. Por outro, a expressão pode deslocar toda a responsabilidade para o usuário, como se a plataforma não participasse da produção dos riscos.

Se o ambiente estimula permanência, retorno e aumento do gasto, não basta informar ao usuário que ele deve controlar-se. A mensagem pode funcionar como proteção simbólica da empresa: o produto é construído para maximizar o engajamento, enquanto os danos são apresentados como falha individual.

A OMS alerta que estratégias baseadas exclusivamente no “jogo responsável” podem ampliar vergonha e culpabilização, sobretudo quando as ferramentas protetivas são opcionais e pouco utilizadas. A organização recomenda medidas populacionais como limites vinculantes, pausas obrigatórias, restrições publicitárias e sistemas efetivos de autoexclusão.

A liberdade não é preservada apenas pela ausência de proibição. Também depende da capacidade de compreender riscos, estabelecer limites e retirar-se sem ser continuamente reconduzido ao comportamento.

Uma escolha é mais livre quando o ambiente respeita a possibilidade de dizer “não”.

Responsabilizar sem culpabilizar

A culpa tende a fixar a pessoa numa identidade moral: fraca, irresponsável, gananciosa ou viciada. Essa interpretação transforma uma relação complexa entre indivíduo e mundo num defeito pessoal.

Responsabilizar é diferente. Significa ajudar a pessoa a reconhecer sua participação, suas consequências e suas possibilidades atuais de ação, sem ignorar as condições que estreitaram sua liberdade.

A responsabilidade pode ser distribuída desta maneira:

Agente

Poder exercido

Responsabilidade correspondente

Apostador

Decide apostar, ocultar, pedir ajuda ou estabelecer limites

Reconhecer consequências e participar ativamente do cuidado

Operadora

Define produto, interface, recompensas e mensagens

Não explorar vulnerabilidades e facilitar limites e afastamento

Plataforma publicitária

Segmenta e amplia anúncios

Impedir direcionamento abusivo e exposição de grupos vulneráveis

Influenciador

Empresta confiança e proximidade à marca

Informar riscos e não apresentar aposta como renda

Estado

Autoriza, fiscaliza e arrecada

Priorizar saúde pública sobre receita e interesse comercial

Rede familiar

Sofre consequências e pode oferecer apoio

Apoiar sem financiar a compulsão ou assumir controle total da vida

Profissionais de saúde

Acolhem sofrimento e avaliam riscos

Cuidar sem julgamento, reducionismo ou abandono

A responsabilidade distribuída não pode tornar-se responsabilidade inexistente. Quanto maior o poder de estruturar o ambiente, maior deve ser a obrigação de prevenir danos.

Ao mesmo tempo, retirar completamente a agência do apostador também pode ser prejudicial. Se a pessoa for apresentada apenas como objeto de manipulação, poderá sentir que nenhuma mudança depende dela.

O cuidado precisa devolver capacidade de escolha sem fingir que todas as escolhas sempre estiveram igualmente disponíveis.

Vergonha, ocultamento e ruptura dos vínculos

O sofrimento relacionado às apostas frequentemente ultrapassa o prejuízo financeiro.

A pessoa pode esconder valores, inventar justificativas, utilizar contas de terceiros, pedir empréstimos ou tentar recuperar perdas antes que a família descubra. O segredo cresce à medida que o prejuízo aumenta.

A vergonha produz um ciclo próprio:

perda → vergonha → ocultamento → isolamento → aposta como fuga → nova perda

Nesse processo, os vínculos familiares podem ser profundamente afetados. O problema não está apenas no dinheiro perdido, mas na quebra de confiança. Familiares passam a vigiar movimentações, desconfiar de explicações e tentar controlar o acesso da pessoa a recursos.

A vigilância pode ser necessária em situações graves, mas também pode transformar o cuidado numa relação exclusivamente policial. A pessoa deixa de ser reconhecida em sua complexidade e passa a aparecer somente como risco financeiro.

É preciso proteger a família sem abandonar quem aposta. Isso pode exigir acordos concretos, limitação temporária de acesso ao dinheiro, transparência financeira, apoio profissional e interrupção de formas de encobrimento.

A rede de apoio não deve pagar repetidamente dívidas sem um plano de cuidado, pois isso pode impedir que as consequências sejam reconhecidas. Também não deve utilizar humilhação, ameaça ou exposição pública como método de mudança.

A escuta clínica: o que a aposta faz por essa pessoa?

Perguntar apenas “por que você não para?” pressupõe que a pessoa possui diante de si uma decisão simples e incompreensivelmente escolhe a pior alternativa.

Uma investigação mais profunda perguntaria:

·      O que você sente antes de apostar?

·      O que muda enquanto a aposta está aberta?

·      O que o ganho parece provar sobre você?

·      O que a perda ameaça revelar?

·      Em que momentos a vontade se intensifica?

·      Apostar oferece excitação, esperança, pertencimento ou fuga?

·      O que você teme que aconteça se parar?

·      Que outras experiências poderiam cumprir parte dessa função?

·      Quais consequências ainda não foram plenamente reconhecidas?

·      Que pessoas e recursos podem ampliar suas possibilidades?

O objetivo não é encontrar uma causa única. A aposta pode desempenhar várias funções ao mesmo tempo. Pode oferecer alívio da ansiedade, afastamento de conflitos, sensação de competência, recuperação imaginária do valor pessoal ou promessa de reparação econômica.

O cuidado precisa examinar tanto a experiência singular quanto as condições concretas. Dívidas, alimentação, moradia, violência, risco de suicídio, uso de substâncias, alterações de sono e conflitos familiares não podem ser tratados como questões secundárias.

Também não se deve transformar todo sofrimento em diagnóstico. Há um contínuo entre uso ocasional, comportamento de risco, prejuízo recorrente e transtorno. A intervenção deve corresponder à gravidade e à situação de cada pessoa.

Redução de danos ou abstinência?

Nem todas as pessoas precisam do mesmo objetivo terapêutico.

Para algumas, estabelecer limites de tempo e dinheiro pode ser possível. Para outras, qualquer retorno à aposta desencadeia rapidamente o padrão anterior, tornando a abstinência e a autoexclusão alternativas mais protetivas.

A redução de danos pode incluir:

·      separar antecipadamente o dinheiro destinado às necessidades essenciais;

·      definir limites antes de entrar na plataforma;

·      não utilizar crédito ou dinheiro emprestado;

·      não apostar sob efeito de álcool ou em estados intensos de ansiedade;

·      evitar apostas destinadas a recuperar perdas;

·      remover notificações e aplicativos;

·      compartilhar a situação com alguém de confiança;

·      acompanhar o resultado líquido mensal, e não apenas vitórias isoladas;

·      utilizar períodos obrigatórios de afastamento;

·      buscar acompanhamento profissional.

Essas medidas não substituem tratamento quando existe perda importante de controle, endividamento grave, violência, risco de suicídio ou comprometimento significativo da vida cotidiana.

No Brasil, a plataforma centralizada de autoexclusão permite bloquear o CPF em todas as operadoras federais autorizadas, impedir a criação de novas contas e interromper publicidade direcionada dessas empresas. O bloqueio, entretanto, não alcança automaticamente plataformas clandestinas, o que demonstra a necessidade de fiscalização continuada.

Em agosto de 2026, o Ministério da Saúde informou que mais de um milhão de pessoas já haviam solicitado autoexclusão. Entre elas, 35% indicaram perda de controle como motivo. O SUS também passou a oferecer até 100 mil teleatendimentos mensais, acessíveis pelo Meu SUS Digital, além do atendimento por UBS e CAPS.

O debate sobre publicidade e regulação

Em 2 de setembro de 2026, a Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado aprovou um projeto que amplia restrições à publicidade e ao patrocínio de bets. O texto alcança redes sociais, plataformas de vídeo, publicidade algorítmica, notificações, influenciadores e bônus destinados a estimular adesão, permanência ou retorno. Também proíbe mensagens que apresentem apostas como fonte de renda, solução financeira ou maneira garantida de recuperar perdas.

A proposta recebeu pedido de urgência para análise pelo Plenário, mas a aprovação em comissão não significa que já tenha se tornado lei.

O debate regulatório precisa enfrentar objeções legítimas. Nem toda aposta é patológica. Adultos podem desejar gastar parte de sua renda em entretenimento. Proibições excessivas podem favorecer o mercado ilegal, dificultar fiscalização e tratar cidadãos como incapazes.

Mas reconhecer essas objeções não exige aceitar qualquer desenho comercial. A regulação pode distinguir o direito de apostar do direito empresarial de estimular ilimitadamente a aposta.

Preservar a liberdade do consumidor pode exigir:

·      limites transparentes de perdas e depósitos;

·      apresentação permanente do resultado líquido;

·      proibição de mensagens que incentivem a recuperação de prejuízos;

·      restrições a bônus e recompensas de retorno;

·      pausas obrigatórias em sessões prolongadas;

·      autoexclusão centralizada e de fácil acesso;

·      restrição à publicidade personalizada para pessoas vulneráveis;

·      auditoria independente dos sistemas de recomendação;

·      proteção de crianças e adolescentes;

·      financiamento público de prevenção e tratamento;

·      transparência sobre vínculos entre indústria, pesquisa e política.

A pergunta regulatória não deveria ser apenas “o Estado deve permitir apostas?”. Deveria incluir: quais formas de produto são compatíveis com a preservação da capacidade de escolha?

Três posições insuficientes

“A pessoa apostou porque quis”

Essa afirmação reconhece a agência, mas ignora a situação. Não considera o desenho do produto, a publicidade, a personalização, a vulnerabilidade financeira e o processo pelo qual a escolha pode estreitar-se.

“A pessoa foi completamente controlada pela plataforma”

Essa posição reconhece o poder comercial, mas corre o risco de eliminar a agência de quem aposta. Sem algum reconhecimento da própria participação, torna-se difícil construir mudanças.

“Basta educar financeiramente”

Informação é importante, mas não neutraliza um ambiente que atua continuamente sobre afetos, expectativas e impulsos. Uma campanha educativa ocasional não possui o mesmo alcance de uma arquitetura acessível 24 horas e personalizada a partir do comportamento do usuário.

A formulação mais adequada seria: a pessoa escolhe, mas suas escolhas acontecem dentro de um ambiente que pode ampliar ou reduzir sua capacidade de interromper, refletir e agir de outro modo.

Síntese: que tipo de liberdade está sendo oferecido?

O problema das bets não pode ser resolvido escolhendo entre liberdade e determinismo.

A liberdade humana não é uma propriedade que simplesmente existe ou desaparece. Ela depende de possibilidades concretas, relações, condições materiais e capacidade de tomar distância dos próprios impulsos.

Uma plataforma pode não obrigar fisicamente alguém a apostar e, ainda assim, organizar o ambiente para tornar a interrupção progressivamente mais difícil. Da mesma maneira, reconhecer a influência da plataforma não significa declarar o apostador incapaz de participar de sua recuperação.

A pergunta mais fértil deixa de ser:

“Essa pessoa escolheu ou foi manipulada?”

E passa a ser:

“Como essa escolha foi produzida, que possibilidades foram estreitadas e o que pode ampliar novamente a capacidade de decidir?”

O cuidado começa quando a pessoa deixa de ser reduzida à identidade de “viciada”, “fraca” ou “irresponsável”. Mas ele também exige que as consequências não sejam ocultadas.

Cuidar significa tornar a situação mais visível, reconhecer os sentidos assumidos pela aposta, proteger necessidades materiais, interromper ciclos destrutivos e reconstruir possibilidades que não dependam da próxima rodada.

Uma sociedade verdadeiramente comprometida com a liberdade não se limita a permitir que cada indivíduo clique em “apostar”. Ela pergunta se o ambiente preserva sua possibilidade real de compreender, limitar e recusar aquilo que lhe é oferecido.

Questões para discussão

1. Uma escolha continua plenamente livre quando o ambiente foi projetado para dificultar sua interrupção?

 

2. Em que momento o entretenimento começa a reorganizar toda a existência da pessoa?

 

3. A aposta oferece esperança ou comercializa a falta de esperança social?

 

4. Por que a promessa de enriquecimento imediato pode ser mais atraente em contextos de precariedade?

 

5. Qual é a diferença entre responsabilizar o apostador e culpá-lo?

 

6. As empresas podem falar em “jogo responsável” enquanto lucram com usuários que perderam o controle?

 

7. A publicidade de apostas deveria receber tratamento semelhante ao de outros produtos associados a riscos para a saúde?

 

8. Proibir bônus e publicidade protege a liberdade ou constitui paternalismo?

 

9. O que acontece com a experiência esportiva quando cada acontecimento da partida pode ser monetizado?

 

10. Quais condições concretas ajudam alguém a recuperar a capacidade de escolher?


João Victor Gabarra Sandoval - Psicólogo | CRP 06/232969
João Victor Gabarra Sandoval - Psicólogo | CRP 06/232969

 
 
 

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